JUE 3 DE DICIEMBRE DE 2020 - 17:03hs.
Com o fim das concessões

Especialistas alertam para novos desafios no setor de jogo em Macau

A indústria do jogo em Macau atravessa um período crítico e encontra-se numa encruzilhada com diferentes riscos no horizonte. Com o fim das concessões em 2022 e um panorama político internacional desfavorável às relações entre EUA e China, as operadoras podem ser obrigadas a adaptarem-se a um novo modelo de subconcessões e a uma supervisão mais rígida. Especialistas preveem alterações nos requisitos exigidos pelo governo no concurso público e assinalam algumas incógnitas sobre os fatores que vão afetar o mercado.

Faltam menos de dois anos para o fim dos atuais contratos de concessão e de subconcessão dos cassinos de Macau, e as operadoras de jogo no território ainda estão no escuro relativamente aos planos do governo para o setor no contexto pós-pandêmico. Segundo vários especialistas ouvidos pela Macau Business, o concurso público para a renovação das concessões será afetado por fatores econômicos e políticos e poderá representar o fim do atual modelo de concessões e subconcessões.

Muita coisa mudou desde o último concurso”, disse Jorge Oliveira, antigo comissário para os assuntos jurídicos da Comissão de Jogos de Macau, que supervisionou o processo de atribuição de concessões ao mercado internacional há 20 anos, frisando que, ao contrário de 1999, agora “há muito mais massa crítica no setor do jogo local”. “Macau é agora muito mais escrutinado por reguladores estrangeiros, analistas de investimento em jogos, reguladores do mercado de valores mobiliários e autoridades centrais da China”, acrescentou Jorge Oliveira em declarações à Macau Business.

O aumento das tensões políticas entre a China e os EUA nos últimos anos poderá afetar o resultado das próximas concessões, nomeadamente em caso de reeleição de Donald Trump para a Casa Branca. “As eleições nos Estados Unidos vão desempenhar um papel importante [na renovação das concessões]”, afirmou Alidad Tash, especialista na indústria do jogo e antigo vice-presidente da Melco Resorts e do Venetian, assinalando que as relações entre China e EUA devem piorar caso Trump vença Joe Biden nas eleições de novembro.

Isso poderá exercer mais pressão sobre as três operadoras dos EUA [Sands, Wynn e MGM] que operam em Macau”, referiu Alidad Tash, acrescentando que as três operadoras podem vir a ser “alvos legítimos nesta nova ‘guerra fria’ [entre China e EUA]”, caso esta administração dos EUA continue a banir empresas chinesas, indicou Tash, atual diretor administrativo da empresa de consultoria de casinos 2NT8 Limited.

Para Ben Lee, um experiente consultor de jogo e ex-vice-presidente no Venetian, “a escalada contínua das tensões entre os dois países irá aumentar o risco de uma ou duas operadoras norte-americanas não conseguir uma nova concessão ou abrir mão do seu patrimônio de controle para manter uma maior presença no mercado de jogo do mundo”. Segundo Ben Lee, nesse cenário, uma empresa ou investidor chinês poderá tornar-se num dos principais interessados em assumir a vaga.

Outra das incertezas apontadas pelos especialistas está relacionada com a revisão das leis de jogo em Macau que poderá afetar o atual modelo de concessão das operadoras. Para Carlos Siu Lam, professor do Centro de Estudos do Jogo e Turismo do Instituto Politécnico de Macau, o atual modelo de três concessões terá de ser reavaliado.

O número de concessões e o conceito de subconcessões precisam ser reavaliados; a prática de restringir o número de concessões sem restringir o número de cassinos é outro enigma regulatório, assim como a relação entre concessionárias e operadoras de ‘junket’ e os regulamentos que regem a reversão de ativos para o governo”, indicou Carlos Siu Lam sobre o fato de existirem atualmente mais de três operadoras no território apesar da lei ser clara em relação ao número máximo de concessões.

Já o advogado e consultor de jogo Antônio Ramirez defende que o caminho a seguir pode ser no sentido de “seis ou sete concessões” e que os próximos vinte anos vão trazer um desenvolvimento automático na “indústria de serviços, inteligência artificial e muito mais”. Como resultado, existe uma necessidade de “conseguir novos atores para desenvolver o setor e Macau, trazendo novas capacidades que irão ajudar às mudanças disruptivas que se afiguram no caminho”. Na opinião do antigo vice-presidente de Recursos Humanos do Sands China, ter mais operadoras “irá provavelmente resultar num ganho para Macau e para a população local”.

Fonte: GMB / Ponto Final