DOM 18 DE NOVEMBRO DE 2018 - 10:01hs.
Uma carta polêmica

Conmebol rejeita o jogo e esquece que tem a casa de apostas Bumbet como patrocinadora

Em sua sede, a entidade mãe do futebol sul-americano propôs aos presidentes dos quatro clubes semifinalistas da Copa Libertadores 2018 (Palmeiras River, Boca e Grêmio) assinarem uma carta. Nela, a confederação pede a rejeição de flagelos do esporte, como racismo, drogas, corrupção e jogos de azar. No entanto, há um ano a casa de apostas brasileira, Bumbet, é patrocinadora da própria Conmebol que não fez distinção entre jogo de azar legal ou ilegal e fez agressões sem sentido a uma atividade remunerada tão legítima quanto qualquer outra.

Na foto à esquerda, o compromisso que a entidade mãe do futebol sul-americano fez para os quatro clubes semifinalistas da Copa Libertadores assinarem. Neste documento, River Plate, Grêmio, Palmeiras e Boca Juniors comprometeram-se a:

1 - Competir de forma limpa,
2 - Cumprir as regras do jogo,
3 - Respeitar o adversário, companheiros, árbitros, juízes de linha, oficiais e espectadores,
4 - Rejeitar a corrupção, drogas, racismo, violência, jogos e outros perigos deste esporte.

O ponto 4 os compromete a "rejeitar a corrupção, as drogas, o racismo, a violência, o JOGOS e outros perigos deste esporte". Na foto à direita, o acordo que a Conmebol tem com a casa de apostas brasileira Bumbet; com duração de dois anos para ser um dos seus principais patrocinadores da Copa Sul-Americana.

É absurdo e sem precedentes que uma associação ataque o principal produto de um patrocinador. E ainda mais retrógrado é colocar o jogo ao nível dos verdadeiros flagelos da sociedade. Para deixar mais claro, não há drogas boas ou ruins, nem racismo bom ou ruim, nem corrupção boa ou ruim. Mas há jogo legal ou ilegal. E o legal é o que gera milhares de fontes de trabalho genuínas em todo o mundo sob controles e regulamentos rigorosos.

Naquela linha da carta, a indústria global de jogos é colocada na mesma altura. É o mesmo apostar se o Boca bate o Palmeiras ou se o River vence o Grêmio em um site legal que usar cocaína, corromper um dirigente para favorecer a esse ou aquele anfitrião de um torneio, ou discriminar pessoas por causa de sua cor de pele? Para a Conmebol sim.

O jogo e as apostas esportivas, especialmente, é uma atividade legal na maioria dos países, com operadores sujeitos a controles e gerando milhões de dólares em impostos. Depois, há também o jogo clandestino e delienquentes que favorecem o arranjo das partidas, entre outras coisas. E para isso, empresas que investigam esses casos foram criadas. O próprio mercado investe nesses controles para manter a indústria saudável. Assim, após as reclamações, atletas, juízes ou mesmo dirigentes são punidos severamente.

A Conmebol coloca na bolsa toda a indústria sem a separação do legal e do ilegal. Ou seja, para a entidade mãe do futebol sul-americano, seu patrocinador Bumbet é igual a qualquer casa de apostas clandestina do mundo. Seria lógico que algum gerente da Bumbet convocasse as autoridades para pedir explicações, um pedido de desculpas e uma retratação imediata.
 

Participaram do encontro os presidentes Romildo Bolzan (Grêmio), Daniel Angelici (Boca Juniors), Rodolfo D'Onofrio (River Plate) e Mauricio Galiotte (Palmeiras). O presidente eleito da Confederação Brasileira de Futebol, Rogério Caboclo, também participou. Os embaixadores da Argentina e do Brasil participaram da parte inicial do encontro com o governo paraguaio, Héctor Lostri e Carlos Sima Magallanes, respectivamente.


Você imagina a FIFA assinando um artigo onde fala mal de cerveja ou de fast foods; sendo que a Budweiser e o McDonald, para citar apenas exemplos, dois dos seus principais patrocinadores que pagam milhões de dólares para expor sua marca nos campeonatos do mundo?

O jogo é atacado enquanto na atual temporada da Liga Espanhola, 19 das 20 equipes da Liga Santander têm algum acordo com as empresas de apostas legais. A Premier League tem 16 equipes que possuem casas de apostas como patrocinador. Além disso, os ingleses têm até o patrocínio das casas como patrocinador principal, usando-o na frente da maioria das camisas. Até mesmo a liga alemã de futebol, a Bundesliga, assinou um contrato de patrocínio com a empresa de apostas esportivas Tipico para suas duas principais categorias.

Nesse mesmo ano duas outras notícias marcaram o futuro desta indústria. A Suprema Corte dos Estados Unidos deu poderes para cada estado legalizar se quer as apostas esportivas e gerou um boom impressionante que multiplica o alcance de mercado, com benefícios para os apostadores, operadores e as próprias ligas. Por outro lado, a Fórmula 1 assinou um acordo para patrocinar casas de apostas, o que representa uma mudança radical da Liberty Media em relação à política anterior. Isso abriu portas e preparou o terreno para o mercado de apostas automobilísticas crescer.

Após discussões e um árduo processo, a Colômbia, país membro da própria Conmebol, abriu seu mercado de jogo através Coljuegos e já tem 16 operadores licenciados cuja renda vai deixar dinheiro de impostos para os cofres do país para investir em segurança, educação e esporte O mesmo acontecerá com o Peru, que elaborou e endossou sua lei e com o Brasil no final deste ano ou no próximo.

Precisamente, a Copa do Brasil, definida essa noite e que entrega prêmios milionários superiores aos oferecidos nos torneios da Conmebol, tem como patrocinador a casa de apostas Bodog.net. A mesma empresa, patrocina a transmissão das partidas da Copa Libertadores pelo canal de TV Fox Sports.

Não menos curioso é ver que um dos signatários é o presidente do Boca, Daniel Angelici, um dos mais importantes empresários do jogo na Argentina. Até mesmo seu império o levou a ser chefe da Câmara Argentina de Bingos e Anexos. Sua atividade é legal, paga impostos por seus lucros e gera fontes de trabalho. No entanto, ele assinou essa carta da Conmebol onde o jogo é travado. Angelici rejeita a atividade que o levou a ser quem ele é.

É uma pena esse passo atrás da organização que dirige o futebol sul-americano. É um retrocesso e uma maneira obsoleta de pensar sobre o jogo. O mundo não questiona se as apostas são positivas ou negativas. Eles são um negócio lucrativo como o realizado por qualquer um dos seus outros patrocinadores. Ele merece o mesmo tratamento e respeito, já que seu dinheiro vem de atividades legais, garantidas e não espurias.

Fonte: GMB