QUI 18 DE JULHO DE 2019 - 12:35hs.
Olavo Sales da Silveira, presidente da ABRABINCS

“Se as operações não tiverem porte para os brasileiros entrarem, seguiremos órfãos no setor”

Em um momento que a legalização das apostas esportivas aqueceu o debate sobre a abertura de outras modalidades de jogos, o GMB conversou com Olavo Sales da Silveira, presidente da Associação Brasileira de Bingos, Cassinos e Similares. Ele defendeu uma regulação que permita maior participação dos empresários brasileiros, a criação de cassinos urbanos e alertou para o perigo do avanço de milícias nas operações de jogos ilegais.

GMB - Qual a sua avaliação sobre o momento do mercado de jogos no Brasil após a legalização das apostas esportivas?
Olavo Sales da Silveira - Sobre o momento, em que pese a minha visão hoje ser na direção de que o governo quer fazer algumas concessões de operações na área lotérica e mesmo nas apostas esportivas, mas, ele não quer se comprometer com a necessidade de uma infraestrutura, grande ou mesmo média, para o controle. Então, eles estão priorizando soltar essas operações na mão de poucas empresas. E quando eles fazem isso, fazem na expectativa de colocar, por exemplo, uma licença para a LOTEX, é claro que vai aparecer uma ou duas empresas, vão acabar fazendo um consorcio e hoje só tem um cliente para comprar a LOTEX. Isso impacta de forma muito pesada no valor que essa operação passa a ter.

Conhecemos que o interesse do governo com relação a privatizar a operação de apostas esportivas, com o aprendizado da LOTEX, já foi colocado um enfoque concorrencial. Mas, o número que se projeta exclui o capital nacional e o empresariado nacional. Nós como uma empresa nacional que representa interesses de brasileiros, enquanto as operações que estiverem sendo licitadas não forem operações de um porte que brasileiros possam entrar nós continuamos órfãs de espaço para a gente operar no mercado de jogos.

Sobre a MP 846, acredita que ela passou por processo de tramitação diferente do que costumamos ver no congresso e por isso foi aprovada com certa velocidade?
Acredito que ocorreram uma série de fatores. Esse era um estudo que áreas do ministério da fazenda já vinham trabalhando como a segundo área a ser tratada; a primeira era a LOTEX e a segunda eram as apostas esportivas. Eu diria que o desdobramento da LOTEX foi sendo transferido e adiado por conta de uma série de ajuste e até por conta de insegurança jurídica e atrasou a colocação ao mercado do produto LOTEX. Então, me parece que na agenda de governo existia uma expectativa de que era chegado o momento de colocar em discussão as apostas esportivas. E eu acho que foi muito feliz a abordagem, a destinação do recurso para atender uma área que o Brasil inteiro vê como carente de iniciativa governamentais; e isso conjugou esforços para acelerar o processo.

Na sua opinião, qual força a modalidade de apostas esportivas tem para impulsionar a regulamentação de outras atividades de jogos como o bingo, que hoje não está em grande evidência?
Nós da ABRABINCS, como Associação Brasileira de Bingos, Cassinos e Similares, entendemos que o nosso interesse está diversificado em termos de modalidades de jogos. O que nós defendemos são modalidades que possam ser praticadas com um investimento razoável e ao alcance dos empresário brasileiros. Porque as operações que aqui se falam, como cassinos em resorts, são investimentos de 3 ou 5 bilhões. Quem tiver 3 ou 5 bilhões só aplica nessa operação se tiver controle, domínio e expertise. Como o jogo não é uma pratica brasileira ninguém aqui tem essa expertise. Quem tem o dinheiro, não tem expertise. E quem tem expertise em jogo, não tem capital para isso. Então, eu vejo o brasileiro fora desse seguimento dos grandes negócios.

Por isso, defendo o cassino resort como uma opção para poucas operações; e o cassino urbano como uma atividade que pode capilarizar, e dar acesso ao brasileiro em diversos municípios que tenham vocação turística e condições de ter um cassino urbano, como foco primário das nossas intenções.

O bingo, eu diria que, sendo uma atividade micro requererá uma estrutura que o governo precisará antes se financiar para montá-la; e isso seria em um momento em que tivéssemos uma agência de jogos e tudo leva a crer que não é assim que vamos começar com os controles da atividade.

A ABRABINCS esteve presente no OGS no começo de dezembro. Qual a sua avaliação sobre o evento?
Eu acredito que eventos dessa natureza são de alta importância para que o mercado e as autoridades estejam sempre lembrando que existe um mercado muito grande com capacidade de gerar empregos, renda, diversão e que eles não pode negligenciar a regulação desse mercado. Então, o primeiro aspecto que eu vejo é que esses eventos trazem a tona, mantém em evidência esse tipo de cuidado que as autoridades tem que ter.

Qual a sua expectativa para o novo governo de Jair Bolsonaro com relação à legalização dos jogos? Quais perigos o Brasil corre caso não consiga regulamentar a atividade?
No momento em que se olha para o jogo como uma atividade econômica regulamentada em 80% dos países que compõem a ONU, em todos os países emergentes, do G20; pensar na não regulamentação é trilhar por um caminho da desinformação. O jogo mundo inteiro é uma atividade regulada com vistas a gerar tributos sob o manto da lei e operado por empresários.  No Brasil ela é uma atividade operada por milícias, o comando vermelho hoje avança em cima de áreas não regulamentadas. Quando é que vai se tirar o jogo da mão de contraventores e criminosos? Quando todas as milícias tiverem tomado conta do jogo? Porque o jogo romântico do jogo do bicho está sendo atacado por milícias. E esses grupos vão sim se utilizar de qualquer atividade como a do jogo, que tem potencial de gerar resultado para financiar, seus outros fins. Então, eu acho muito perigoso, até do ponto de vista de segurança, não regulamentar o jogo.

Fonte: Exclusivo GMB