TER 20 DE NOVEMBRO DE 2018 - 10:32hs.
OPINIÃO-Antónia Correia, diretora da Escola de Turismo da UE

Porque Portugal também não pode ser visto como a Las Vegas da Europa?

'Em Portugal os oito cassinos existentes faturam mais de 1,3 milhões de euros por ano. Se olharmos para o mercado asiático, habituados a viajar para Macau para o efeito, vivem o jogo como uma das suas primeiras motivações para viajar. Com os chineses chegando com força a Portugal, vale reforçar a posição dos cassinos na cadeia de valor turístico', opina Antónia Correia, diretora da Escola de Turismo e Hospitalidade da Universidade Europeia.

No ano em que o turismo foi galardoado como melhor destino do mundo, os discursos continuam centrados em torno do alojamento e dos transportes. Sendo o turismo um produto holístico que na sua génese alberga experiências, e dado que o mercado chinês é cada vez mais uma realidade em Portugal, importa levar o discurso para outras dimensões como por exemplo os casinos e o jogo, campos onde este mercado específico já deu mostras de o valorizar bastante, um pouco por todo o mundo.

O número de turistas que viajam para jogar é crescente, sobretudo em países onde não era grande a tradição do jogo. Procuram destinos onde o jogo é legal e combinam esta atividade com muitas outras. Na verdade, estes turistas passam menos tempo dentro dos casinos do que os jogadores frequentes, e além do dinheiro que aplicam na roleta ou no blackjack, há ainda o que gastam em hotéis, restaurantes ou outras ofertas turísticas associadas.

Em Portugal os oito casinos existentes faturam mais de 1,3 milhões de euros por ano, sendo capazes de atrair clientes sociais que frequentam estes espaços, para ver um espetáculo ou beber um copo e jogam a reboque desse pretexto, os jogadores por motivos de lazer que jogam esporadicamente e os jogadores regulares ou profissionais, que jogam quotidianamente.

Os turistas recaem nos dois primeiros grupos. Se olharmos para o mercado asiático, habituados a viajar para Macau para o efeito, vivem o jogo como uma das suas primeiras motivações para viajar, mas jogam sobretudo por questões sociais, razões que também justificam as compras ostensivas de marcas de luxo a que habitualmente se dedicam. Se em Portugal já se assumiu que para atrair chineses é preciso desenvolver o comércio de alto luxo, não será também tempo de alavancar a visita destes aos casinos existentes?

Estudos realizados por mim, Metin Kozak e Ali Bavik, da Universidade de Macau, revelam que nas últimas duas décadas Macau se assumiu como o “Monte Carlo do Oriente”. Em 2015, Macau gerou 31.303 milhões de dólares americanos de receitas, das quais 80% suporta-se no turista de jogo. Sendo o principal mercado de Macau o turista chinês pode assumir-se que a principal motivação dos chineses de visita a Macau são os casinos.

Estes turistas percecionam o jogo como uma experiência cultural impregnada de adrenalina que faz as delícias de quem se aproxima do pano verde. Estes turistas viajam por motivos culturais, gastam mais e procuram no destino atividades desportivas, vida noturna e gastronomia, perfilando o que podemos designar como turista de casino de segunda geração. Mais jovens (67%) ou mais adultos (30%) com maior ou menor poder de compra, estes turistas jogam, compram, degustam as iguarias do local e experienciam a noite.

O jogo é para eles uma forma de aprender a cultura local, uma passagem que, bem aproveitada, os pode conduzir a outras ofertas que os países têm para oferecer. Com os chineses a chegarem em força a Portugal, importa reforçar a posição dos casinos na cadeia de valor turística, dotando-os da cultura que os turistas tanto almejam. Os laços ancestrais que temos com Macau permite-os sugerir que face a esta nova vaga de procura turística porque não Portugal também ser visto como as Las Vegas da Europa? Temos assim tanto a perder ou trata-se de uma belíssima probabilidade de multiplicar oportunidades e rentabilizar milhões a partir desta aposta?

*Por Antónia Correia, directora da Escola de Turismo e Hospitalidade da Universidade Europeia.