QUI 22 DE AGOSTO DE 2019 - 11:14hs.
Artigo da Agência Pública

Sheldon Adelson, o bilionário que mira cassinos no Brasil

O magnata dos cassinos Sheldon Adelson, fundador e presidente da Las Vegas Sands, quer trazer seu modelo de negócios para o território brasileiro. A companhia é líder mundial do setor de resorts integrados a cassinos, com nove empreendimentos espalhados entre os Estados Unidos, Cingapura e China, tem o Brasil na sua mira. Artigo do Alice Maciel, da Agência Pública.

É certo que não foi apenas por acreditar nas palavras da Bíblia que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu mudar a embaixada do país de Tel- Aviv para Jerusalém. Nem foi por isso que o empresário do ramo de entretenimento deu poder a uma equipe de pastores evangélicos na Casa Branca para que fizessem lobby em nações latino-americanas, convencendo seus governantes a fazer o mesmo. Uma das maiores influências por trás da atitude de Trump foi o magnata dos cassinos Sheldon Adelson, fundador e presidente da Las Vegas Sands (LVS), e sua mulher, a israelense Miriam Adelson. A companhia é líder do setor de resorts integrados a cassinos no mundo, com nove empreendimentos espalhados entre os Estados Unidos, Cingapura e China.

Maior doador de campanha de Donald Trump – foram US$ 20 milhões na campanha e outros US$ 5 milhões arrecadados para a cerimônia da posse – e forte aliado do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, Sheldon Adelson é apontado como o principal articulador da política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio. Além de transferir a embaixada para Jerusalém, o governo americano cortou o financiamento para ajuda a refugiados palestinos e desmantelou o acordo nuclear com o Irã.

Sheldon Adelson se ofereceu para ajudar a financiar a mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, conforme revelou o New York Times em fevereiro do ano passado. Durante a inauguração da embaixada, os Adelsons ganharam assentos privilegiados, ao lado de Netanyahu e sua esposa, da filha de Donald Trump, Ivanka, e seu marido, Jared Kushner, e do secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, de acordo com a reportagem investigativa da ProPublica e da WNYC.

Miriam escreveu um relato da cerimônia, elogiando Donald Trump, que foi copublicada na primeira página dos dois jornais que o próprio Adelson tem em Israel: o Israel Hayom – diário gratuito que afirma ter a maior circulação no país – e o Las Vegas Review-Journal. “A abertura da embaixada é um momento de coroamento para a política externa dos EUA, para o nosso presidente, Donald Trump. Pouco mais de um ano após seu primeiro mandato, ele rencentrou os Estados Unidos como porta-estandarte da clareza moral e da coragem em um mundo que muitas vezes se sente à deriva.”

De acordo com o ProPublica, o presidente da Organização Sionista da América, Morton Klein, que também estava na inauguração, contou que o Sheldon Adelson lhe disse: “O presidente Trump prometeu que faria isso e fez isso”. Ao jornal, o CEO da Câmara de Comércio Judaica Ortodoxa, Duvi Honig revelou: “Sheldon me disse que qualquer país que queira mudar sua embaixada para Jerusalém, ele os levará – o presidente e todos – para a abertura”.

Em parte pelo menos, ele está cumprindo essa promessa. Em 16 de maio, o magnata dos cassinos emprestou seu avião particular para o presidente da Guatemala, Jimmy Morales, e sua comitiva, viajarem para participar da inauguração da embaixada do país em Jerusalém, segundo o jornal Nomada, membro da investigação conjunta “As Transnacionais da Fé”, uma colaboração entre 16 meios latino-americanos, sob a liderança da Columbia Journalism Investigations, da Universidade Columbia.

Tanto os Estados Unidos quanto a Guatemala mudaram suas embaixadas para Jerusalém em maio de 2018, com dois dias de intervalo.

De origem pobre, Sheldon Adelson é hoje o 24º homem mais rico do mundo, segundo a lista de bilionários da Forbes de 2019, com uma fortuna avaliada em US$ 35,1 bilhões. Parte de seus recursos é destinada a organizações judaicas e sionistas. De acordo com a Forbes, ele doou US$ 410 milhões para a Birthright, uma entidade que envia jovens judeus em viagens gratuitas para Israel. O magnata dos cassinos financia também a Organização Sionista da América, a mais antiga liga pró-Israel nos Estados Unidos.

No seu site, a organização informa que se dedica a educar o público, autoridades eleitas, mídia e estudantes de faculdades e promover fortes relações EUA-Israel. “A ZOA (Zionist Organization of America) trabalha para proteger os estudantes de faculdades e colégios judaicos da intimidação, assédio e discriminação, e na luta contra o antissemitismo em geral”, acrescenta.

Ainda é obscuro se há interesses econômicos de Adelson na sua militância pró-Israel. Fato é que a proximidade com o homem na Casa Branca – Trump também teve cassinos em Las Vegas, onde competia diretamente com Adelson – parece estar abrindo portas também para os negócios do magnata. E o Brasil está na sua mira.

Em encontro, Trump falou a Bolsonaro sobre legalização de cassinos

De acordo com uma reportagem investigativa da ProPublica e da WNYC, em fevereiro de 2017, durante um encontro com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, Donald Trump mencionou o interesse de Adelson em construir um cassino no Japão, segundo duas fontes do jornal. O jogo no país é legalizado e o mercado, competitivo. De acordo com a reportagem, por mais de uma década, Adelson e sua empresa, a LVS, tentam conseguir uma licença para construir um resort com cassino multibilionário.

Um movimento semelhante tem ocorrido para beneficiar os negócios do magnata no Brasil, segundo apurou a Agência Pública.

Conforme divulgado pelo Estado de S. Paulo, a legalização dos cassinos foi tema de conversa entre Trump e Jair Bolsonaro durante visita do presidente brasileiro a Washington, em 19 de março. Dois dias após esse encontro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, afirmou que o governo deverá provocar um debate no Congresso Nacional sobre a possibilidade de permitir que cassinos possam operar integrados a resorts. Exatamente o modelo de negócios de Sheldon Adelson.

Ao ser questionado pela Pública sobre as articulações do ministro a respeito do assunto, o Ministério do Turismo afirmou por meio de nota: “Em primeiro lugar, é preciso separar a liberação de cassinos integrados a resorts e jogos de azar como um todo. Neste momento, este é um assunto que está em discussão no Congresso Nacional”. Segundo o órgão, o ministro nunca se encontrou com o empresário Sheldon Adelson.

Entretanto, em visita ao Brasil em maio do ano passado, o bilionário americano deixou claro quais são seus interesses no país. “Estou aqui para considerar o investimento em um ou mais resorts integrados”, afirmou em entrevista ao Valor Econômico. De acordo com o jornal, “o LVS quer que os cassinos fiquem restritos aos complexos turísticos – o modelo integrado que, para a companhia, é a única que pode trazer os benefícios desejados”.

“Na Argentina, há pequenos cassinos, mas não temos interesse nisso”, observou Adelson. Coincidentemente, o mesmo modelo foi defendido pelo ministro do turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

Promessa de investimento de US$ 10 bilhões no Rio de Janeiro com bênçãos de Crivella

Um dos principais entusiastas da ideia dos cassinos integrados a resorts tem sido o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho do líder da igreja, bispo Edir Macedo, ele chegou a se reunir em maio do ano passado com Sheldon Adelson para tratar do tema. Em entrevista ao Valor Econômico publicada em dezembro, Crivella disse que quer ajuda do governo federal para liberar os cassinos. “As pessoas sabem que, se não tivermos emprego, vamos para o caos social. E joga quem quiser”, justificou.

“Lutei muito no ano passado, não consegui, mas quero que o Bolsonaro me ajude. Que é [aprovar] uma superlicença para termos um cassino. Recebi a visita do Sheldon Adelson e ele está interessadíssimo. A ideia dele era comprar [a área do aeroporto] Santos Dumont. Tirei isso da cabeça dele, para ele comprar o Porto Maravilha. E nós termos aqui um cassino tipo o que ele fez em Cingapura, onde 5% é o cassino, e tem centro de exposições, centro de convenções, hotel com duas torres enormes, de 50 metros, e piscina lá em cima. Ele me disse que fatura mais em Cingapura do que todos os cassinos de Las Vegas. Tá louco para investir. Compromisso dele: investir US$ 10 bilhões e gerar 50 mil empregos. Vamos ter aqui um grande empreendimento”, contou ao jornal.

Questionado pelo Estadão sobre o jogo ser pecado para algumas igrejas, o bispo e prefeito completou: “Quem acha que é pecado não deve jogar”.

A Pública solicitou uma entrevista com o prefeito, mas até o fechamento desta reportagem não teve nenhum retorno.

Conforme apurou a reportagem, o projeto da LVS foi abraçado também pelo governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC). Antes de anunciar investimento na Cidade Maravilhosa, no entanto, o grupo tentou negociar primeiro com o governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB), sem sucesso. A LVS estava interessada no Complexo do Anhembi, de acordo com uma fonte que acompanhou as negociações.

O lobby da LVS no Brasil

Não é de hoje que Adelson faz lobby para legalizar os cassinos no Brasil. O presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Turismo, deputado federal Herculano Passos (MDB-SP), contou à Pública que foi convidado para almoço com Sheldon Adelson em Brasília em duas ocasiões, em 2016 e 2017. “Além de mim, participaram outros parlamentares e representantes do Poder Executivo”, acrescentou. Segundo ele, o empresário disse que o grupo LVS tem interesse em abrir três complexos integrados de lazer com cassinos no país.

Conforme apurou a Pública, o escritório de advocacia Lowenthal Advogados representa os interesses da LVS no país e articula com o Congresso Nacional e o governo federal para que o modelo de cassino integrado a resort seja liberado no país.

Nos anos 2017 e 2018, os consultores da LVS, Fabio Lowenthal, da Lowenthal Advogados, e Henry Lowenthal, da GR8 Capital Consultoria Empresarial, se reuniram pelo menos quatro vezes com representantes do primeiro e segundo escalão do governo federal.

Todas essas reuniões foram registradas nas agendas oficiais dos respectivos anfitriões. No dia 4 de outubro de 2017, eles se reuniram com o então secretário adjunto de Planejamento e Assuntos Econômicos, Júlio Alexandre Menezes da Silva. Em 28 de novembro de 2017, estiveram com a então subchefe de assuntos parlamentares da Secretaria de Governo da Presidência, Mariangela Fialek.

Já em 2018, no dia 28 de fevereiro, eles se encontraram com o então secretário de Acompanhamento Fiscal, Energia e Loteria do Ministério de Economia, Mansueto Facundo de Almeida Júnior. Participaram também dessa reunião a consultora Camila Barbosa, o vice-presidente de relações governamentais da LVS, Andrew F. Abboud, e o economista e professor da Fundação Getulio Vargas, Samuel Pessôa. Conforme registrado na agenda, o assunto da pauta foi: “jogos em complexos de resorts”.

Já com o ex-presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Antonio Carlos Ferreira de Souza, essa mesma equipe conversou sobre “mecanismo de combate à lavagem de dinheiro nas atividades de jogos de azar”, em 20 de setembro de 2018.

A reportagem da Pública ligou diversas vezes para a Lowenthal Advogados, mas não conseguiu falar com Fabio Lowenthal e, apesar de ter deixado recado, não teve retorno. Um email foi enviado também para o consultor da LVS. A reportagem não conseguiu contato com Henry Lowenthal nem com Camila Barbosa. O professor Samuel Pessôa não quis dar entrevista.

A reportagem solicitou uma entrevista com Sheldon Adelson e enviou uma série de perguntas à assessoria da LVS no Brasil. Por meio de nota, eles informaram que “há algum tempo a LVS tem acompanhado as discussões sobre legalização de jogos no Brasil, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado” e que “a LVS entende que o Brasil é um grande destino turístico com diferentes belezas naturais e o país possui um dos maiores potenciais turísticos inexplorados do mundo”.

“A LVS estará pronta para investir no Brasil imediatamente, desde que o processo de legalização e o arcabouço regulatório sigam os altos padrões de outras jurisdições como Cingapura, Macau e Nevada, que têm um ambiente de jogo limitado e estritamente regulado. As discussões que vêm ocorrendo no Congresso nos últimos anos são muito interessantes para o Brasil, pois podem atrair um grande investimento internacional para a construção de novos complexos turísticos espalhados por todo o Brasil. Esse processo aumentaria o número de turistas internacionais que visitam o país, colocando o Brasil como um novo destino para as principais feiras e convenções internacionais (segmento MICE). O resultado desses novos investimentos no setor de turismo seria a geração de novos empregos, aumento de renda, novos investimentos internacionais privados, aumento da receita tributária, aumento do gasto dos turistas no Brasil, entre outros”, diz a nota.

No Congresso, a “Lei Sheldon Adelson”

A pauta sobre a legalização dos cassinos esquentou este ano no país depois que começou a tramitar na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 530/2019, de autoria do deputado federal Paulo Azi (DEM-BA), que autoriza a “exploração, em todo Território Nacional, de jogos de fortuna exclusivamente em cassinos estabelecidos em resorts integrados”. É exatamente o modelo de negócios capitaneado por Sheldon Adelson.

Os resorts, de acordo com o texto, “são empreendimentos que se compõem de meios de hospedagem e de um conjunto de instalações, serviços e produtos voltados ao entretenimento do visitante, tais como centros de convenções, cassinos, spas, restaurantes, bares, shoppings, galerias de arte, museus, teatros, espetáculos musicais, campos de golfe, praças esportivas, parques temáticos e parques aquáticos”.

No texto do projeto, Paulo Azi justifica que o objetivo da proposta “parte da premissa que o jogo já existe no Brasil, mas é majoritariamente ilegal e minoritariamente legalizado por meio de loterias operacionalizadas pela União (Caixa Econômica)”. Segundo o projeto, o que se pretende não é criar algo novo, “mas legalizar, regulamentar e tributar essa parte majoritária, de forma a trazer para a formalidade uma atividade já em curso, além de fortalecer e dinamizar o turismo no Brasil”.

Mas o projeto de lei casa tanto com os interesses e o perfil dos negócios do grupo LVS que a proposta recebeu o apelido de “Lei Sheldon Adelson”. Além de restringir a legalização do cassino dentro de resorts, o projeto restringe o número de licenças para cada cidade: “Um resort cassino por Estado ou no Distrito Federal, com população até 15 milhões de habitantes; dois resorts cassinos por Estado ou no Distrito Federal, com população entre 15 quinze e 25 milhões de habitantes; três resorts cassinos, no máximo, por Estado ou no Distrito Federal, com população superior a 25 milhões de habitantes”, diz o texto.

Uma pessoa que acompanha as negociações do grupo no Brasil contou à Pública que essas foram as duas exigências de Sheldon Adelson: que a legalização fosse restrita ao modelo de cassinos integrados a resorts e que o número de licenciamento para cada cidade fosse restrito.

Apesar de ter se reunido com Sheldon Adelson em duas ocasiões, o deputado federal Herculano Passos disse que “em momento algum” foi “abordado pelo empresário, ou quem quer que seja, para apresentar ou intermediar apresentação de projeto sobre cassinos, apesar de defender a causa”.

“Eu acredito que, no formato que o projeto principal está, atende perfeitamente o setor de turismo e, como ele já foi amplamente debatido e aprovado pela Comissão Especial, indica que não só eu, mas os membros da Comissão também acreditam no potencial econômico da legalização dos cassinos no Brasil”, afirmou.

Fonte: Alice Maciel - Agência Pública