QUI 22 DE AGOSTO DE 2019 - 10:58hs.
Aos 84 anos, em Las Vegas

Faleceu Ciro Batelli, ex-VP do Caesars e pioneiro na luta pela legalização do jogo no Brasil

No último domingo, Ciro Batelli, o homem que conseguiu sair de Ribeirão Preto e se tornar um dos vice-presidentes da imponente organização internacional Caesars, faleceu aos 84 anos, vítima de um câncer que estava em tratamento. Há menos de dois meses, o empresário perdeu seu filho Fernando, de 43 anos. Ciro era considerado uma das maiores autoridades em cassinos e bingos em todo o mundo e, nos anos 1970, foi presidente do comitê de abertura dos cassinos no Brasil. Foi repórter de TV e um “embaixador” de Las Vegas para turistas e investidores brasileiros que o visitavam.

Batelli era um dos mais importantes embaixadores de Las Vegas para turistas e investidores brasileiros. Sua chegada a Las Vegas começou a se intensificar a partir de 1966, quando o Caesars Palace foi construído. A partir disso, Ciro começou a estudar a temática dos cassinos por hobby. Por gostar tanto de jogos, desejou que um dia fosse possível abrir cassinos no Brasil também. Nos anos 1970 que ele foi presidente do comitê de abertura dos cassinos no País.

Ciro trabalhou como repórter em vários programas de TV e foi diretor de projetos especiais do Programa Amaury Jr., da Rede TV, e do Domingão do Faustão, da TV Globo. Ele vivia em Las Vegas e era um expert em assuntos relacionados a bingos e cassinos. Ex-CEO do Grupo Caesars, Ciro foi considerado uma das maiores autoridades em cassinos em todo o mundo. Las Vegas o homenageou colocando seu nome em uma das ruas da cidade. Ciro trabalhou como repórter em vários programas de TV.

Batelli era símbolo de família. O seu ótimo relacionamento com mulher e filhos, possibilitaram que ele tivesse todo o apoio necessário para poder viver em outro país e cultivar uma legião de amigos.

Ciro foi membro da Câmara Latina de Comércio de Las Vegas. Como sempre promoveu a cidade de Las Vegas pelo mundo, acreditava que o melhor destino de entretenimento estava em Nevada. Ele relatou que seu coração estava dividido entre o Brasil e os Estados Unidos. O mundo dos casinos fazem parte de sua vida. Trabalhando com clientes vips, viveu muitos momentos inusitados com as maiores celebridades. Sua credibilidade pessoal ajudou muito a consolidar sua carreira profissional.

A história de como um menino de Ribeirão Preto virou o vice-presidente da gigantesca organização Caesars International, na capital mundial do jogo, já foi o suficiente para torná-lo uma celebridade. Batelli era bastante conhecido por um grande círculo de amigos e clientes que visitavam Las Vegas nos últimos 30 anos. Brasileiros aos montes foram recebidos pelos legionários fake do Caesars com atenção especial do Ciro.

Ele virou também um freqüentador habitual do programa de Amaury Junior na rede Bandeirantes e teve sua imagem espalhada pelo Brasil. Mas celebridade mesmo Ciro se tornou quando assumiu seu namoro com a primeira dama da televisão brasileira, sua majestade, Hebe Camargo. Foi aí que ele soube o que era acordar com telefonemas de repórteres e ser perseguido por oito viaturas da imprensa futriqueira pelas ruas de São Paulo.

Sobre como chegou a Ceasars, Batelli contava uma anedota engraçada: “em 1985 eu estava em Las Vegas para assistir uma luta do Sugar Ray Leonard. Dessa vez, em vez de minha mulher, eu viajei com minha sogra, com quem, aliás, me dou muito bem. Toca o telefone. É a secretária do Terry Lanni, o número 1 do Caesars na época, me convidando para um jantar. Nesse jantar havia mais executivos do que eu esperava. O Lanni me convida para assumir o departamento latino-americano do Caesars em Atlantic City. Eu disse: “a resposta só te dou amanhã”. Ninguém entendeu. “Como assim, Ciro? Nós temos 11 mil funcionários, e todos eles querem a posição que estamos te oferecendo”. Eu respondi: ‘Me desculpe, Terry, mas antes tenho que consultar minha sogra’”.

Em 2011, Ciro concedeu uma rica reportagem da revista Playboy Brasil onde analisava a situação dos cassinos no Brasil junto a seu trabalho e forte apoio à legalização. Aqui reproduzimos  algumas das melhores partes dessa entrevista do querido Ciro:

PLAYBOY — Afinal: por que não há cassinos no Brasil?
BATELLI
— Em primeiro lugar, pela falsa moral, faz tempo. A hipocrisia, mais tempo ainda. E falta uma regulamentação séria. Cassino é um negócio muito sério. Você não pode se basear sobre cassinos vendo filmes de Hollywood. Aquilo é ficção. Ou então quem tem a idéia dos cassinos americanos de antes da década de 1960.

O que aconteceu nos anos 60?
Essa é a marca divisória. Foi quando começaram a organizar as comissões de jogos nos Estados Unidos. Elas agem com um rigor digno da Gestapo. Qualquer funcionário de um cassino, do porteiro ao presidente tem que ser licenciado pela Comissão de Jogos, com uma investigação de sua vida pregressa de 20 anos. A cada três anos essa licença é renovada e a investigação recomeça. Mentira é um pecado capital em Las Vegas. Contou uma mentira, tem a licença suspensa.

Quem começou essa limpeza?
Foi um processo saneador imposto pelas grandes corporações. Afinal, quem é acionista dos cassinos de Las Vegas, hoje? O fundo de pensão dos professores da Califórnia, o Banco do Japão, grandes multinacionais. O crime organizado foi afastado. A comissão de jogos é um órgão estadual, com total autonomia. Se você é reprovado na Comissão, não adianta partir para a Suprema Corte. Frank Sinatra tinha 25% do hotel Sands. Sua licença foi cassada só porque ele saiu numa foto com o gângster Carlo Gambino em Nova York. Foi essa seriedade que abriu Las Vegas para os grandes investidores. Se eu quiser contratar você para trabalhar no meu hotel-cassino, primeiro vou ter que consultar o FBI. Se eles negarem, nem faço o convite, não importa seu talento.

E esse rigor é possível no Brasil?
Ninguém quer ser mais realista que o rei. Uma regulamentação tem que ser adaptada à conjuntura brasileira. Eu fui convocado pela Câmara dos Deputados do Brasil, tivemos a aprovação do nosso projeto de regulamentação de cassinos na Câmara. A Comissão de Justiça fez uma sabatina comigo. O projeto foi para o Senado, aprovado por 9 a 4. Agora a regulamentação está nas mãos do vice-presidente do Senado, senador Edison Lobão. Ele me disse que o projeto está quase pronto para ser aprovado, mas que o momento não é propício, pois temos outras prioridades. E eu sou obrigado a concordar com ele. Está havendo um processo saneador no Congresso brasileiro como aconteceu em Las Vegas.

Como seriam os cassinos brasileiros?
Seriam hotéis-cassino instalados em estâncias turísticas registradas na Embratur. São mais de mil estâncias turísticas, incluindo todo o litoral, estâncias climáticas e minerais. Não seriam apenas salas de jogo, pois já temos os bingos, uma atividade muito honesta e séria, apesar de alguns maus elementos. É só disciplinar, com parâmetros legais.

Quem faz lobby contra cassinos no Brasil?
Ninguém. A Igreja só se coloca contra quando perguntada. Apesar do Banco do Vaticano ter uma participação de 8% nos Cassinos Áustria. Eu recebi as provas disso do governo austríaco. E esse negócio da Igreja se meter em atividade industrial ou lúdica… a Igreja tem que cuidar das almas. Não deve misturar estação.

E quem apóia a regulamentação dos cassinos no Brasil?
Toda a indústria turística apóia. O Sindicato de Garçons, o sindicato de Hotéis e Similares, a Confederação Nacional de Turismo, a Confederação Nacional de Empregados do Comércio, todo mundo apóia. Quem não apóia é por algum problema pessoal ou por desconhecer a realidade dos cassinos. É aquela história: eu não gosto de cassino mas nunca fui em um. Eu não gosto de Coca-Cola, mas nunca experimentei.

E o governo brasileiro?
Um dos grandes inimigos dos cassinos é o José Serra. Me parece que ele é muito ligado à Assembléia de Deus. Como ministro da Saúde é um dos melhores que o Brasil já teve até hoje. Minhas homenagens. Mas parece ter nascido num pé de limoeiro. Está sempre de cara azeda.

Mas esta é uma posição pessoal dele ou oficial do governo?
Não é oficial, pois quando eu fui convidado a prestar depoimento no Senado fui acompanhado pelo ministro da Justiça na época, senhor Iris Rezende, que me dedicou muito tempo. A declaração dele está gravada no Senado: “Como homem evangélico eu não sou favorável, mas como ministro da Justiça tenho que reconhecer que este projeto, como está sendo apresentado, é um benefício para o nosso país”. Como ministro, ele jamais daria uma opinião favorável se não tivesse consultado o presidente.

Com quantos presidentes você já falou sobre esse projeto?
Desde o tempo do João Figueiredo [presidente de 1979 a 1985]! O filho dele, Paulinho Figueiredo, me convidou para um coquetel e me perguntou na frente do presidente: “Quando nós vamos ter as roletas girando no Brasil?” Eu respondi: “Paulinho, isso depende de sua excelência, o senhor seu pai”. Aí o presidente Figueiredo botou a mão no meu ombro e disse: “Batelli, você é um porra-louca. Eu sou um militar. Nunca freqüentei cassino. Não tenho nada contra cassinos. Mas é que eu tenho 419 filhos-da-puta em Brasília, e eles vão querer um cassino cada um. Então eu sou contra, por comodidade”. Naquela época existiam 419 deputados, e, não, 513, como hoje.

Qual seria o impacto econômico da abertura dos cassinos no Brasil?
Em primeiro lugar, os jogadores deixariam de ir para Las Vegas ou Punta del Leste. Eu quero dizer os jogadores de médio pra baixo. Os grandes jogadores não ficariam expostos a jornalistas e fofocas, continuariam viajando para fora. Economicamente, o importante para o Brasil não é o jogo em si, mas as atrações, os espetáculos, os restaurantes, os eventos esportivos. Seria uma injeção na economia do turismo interno, sazonal, principalmente. Um show segura o turista mais um dia ou dois. Seriam mais palcos para artistas brasileiros. Mais incentivo para estudantes de dança, de arte dramática. Hoje esse mercado de trabalho artístico está muito reduzido. Hoje não se faz nem monólogo sem patrocínio. Você vai ao cassino e não precisa jogar nada, nem 25 centavos. Vai para jantar, para curtir um show. O Silvio Santos, por exemplo: ele vai a Las Vegas para ler e assistir a shows. Nunca gastou 25 centavos em um caça-níqueis. E eu conheço o Silvio Santos há anos.

Fonte: GMB