MIÉ 30 DE SEPTIEMBRE DE 2020 - 12:11hs.
Francisco Calvo, Diretor de Operações Rio Quente Resorts, Aviva

"O Poderoso Chefão"​: cassinos e hotéis na Cuba pré-revolucionária

Você é a favor da legalização do jogo no Brasil? Ou acha mais sensato continuarmos só com a Mega Sena e as apostas esportivas e seguirmos sem envolver a hotelaria no processo? Conhece a história dos hotéis-cassinos de Cuba de antes do triunfo da Revolução? Sabia que a famosa reunião de mafiosos na Havana do Poderoso Chefão 2 aconteceu de verdade? Neste novo artigo de Hotelaria e Cinema, Francisco Calvo, Diretor de Operações Rio Quente Resorts fala de Godfather, de Cuba, de seus cassinos e da legalização do jogo no Brasil.

Algumas cenas de cinema são tão emblemáticas, que carregam consigo a força de representar um filme inteiro. É o caso da bicicleta voadora de ET, do assassinato no chuveiro de Psicose, da dança dos talheres de Carlitos em A Corrida do Ouro, de Jack Nicholson correndo com um machado em um labirinto coberto de neve em O Iluminado, de Julia Roberts na banheira da suite do Beverly Wilshire Hotel em Pretty Woman, da dança de Phoenix em Coringa... São cenas que nos abrem os olhos para a incomparável capacidade do cinema de nos contar estórias, e de nos fazer guardar para sempre na memória um momento apenas visto como se o tivéssemos efetivamente vivido. Nossa dificuldade de recordarmos sonhos é inversamente proporcional a facilidade de lembrarmos de filmes, fator que transforma o imaginário coletivo a partir do século XX, criando referências universais. Uma delas, e das mais significativas, é o retrato familiar da Mafia pelo cinema de Coppola.

Desde a década de 30, época dourada dos gangster movies, o estereótipo do chefe de quadrilha era o de um criminoso impulsivo, sem nenhum respeito por códigos ou alianças, um outsider às margens do sonho americano, em suma, um inimigo público, replicando em ambiente urbano os vilões dos filmes de faroeste que se confrontavam com a sociedade dos homens de bem. James Cagney, Edward G. Robinson, Paul Muni, e Humphrey Bogart protagonizaram este papel em clássicos como Public Enemy (O Inimigo Publico-1931), Little Caesar (O Pequeno Cesar-1931), Scarface (Scarface - O Homem da Cicatriz - 1932), The Roaring Twenties (Heróis Esquecidos-1939), e White Heat (Fúria Sanguinária-1949).

Quando Francis Ford Coppola lança Godfather (O Poderoso Chefão) em 1972, revoluciona totalmente o gênero, colocando a mafia bem no centro da vida americana, expondo as suas relações com a policia e a política, ressaltando a importância fundamental da família e da lealdade nos relacionamentos como o alicerce de sustentabilidade do crime organizado. A força do criminoso deixa de estar na sua impulsividade, e passa a radicar na sua liderança, no seu autocontrole, na sua forma de honrar compromissos e estabelecer redes de influência. Ele deixa de ser um inimigo público enfrentado à sociedade, para ser parte bem sucedida da mesma, usando sua habilidade de gestão e relacionamento para enriquecer de forma ilícita, corrompendo a ingenuidade do sonho americano, e desnudando a falência moral de um modelo de sociedade estruturado em torno da idéia de sucesso. O ritmo aparentemente lento da trilogia Godfather faz com que as cenas de assassinatos a sangue frio para a manutenção do poder sejam ainda mais chocantes. Coppola humanizou a Mafia com lideres criminosos que não morrem necessariamente em combate, mas que envelhecem, criam raízes, formam famílias e se perpetuam em sua ação corruptora da sociedade.

 



Sua estrutura é tão forte, que são capazes de estenderem o alcance do seu território a outros países, influindo na escolha de seus governantes, de acordo com suas conveniências. Há uma cena emblemática em Godfather 2 (O Poderoso Chefão 2 - 1974), onde Michael Corleone (Al Pacino) está reunido com um grupo de lideres mafiosos na imensa varanda de um hotel em Havana para celebrar o aniversário de Hyman Roth (Lee Strasberg), em meio a um belíssimo dia de sol, tão habitual na chamada Pérola do Caribe. Roth coordena a ação da Mafia em Cuba, onde conta com a cumplicidade do ditador Fulgêncio Batista, que criou significativas vantagens fiscais e logísticas para que esses grupos pudessem estabelecer na ilha a base do seu lucrativo negócio de hotéis e cassinos. A reunião transcorre como uma espécie de Congresso de Viena de famílias mafiosas, onde os concorrentes concordam em superar as suas diferenças, para entre eles dividirem o negócio. Coppola constrói então apenas com imagens mais um momento único da história do cinema, quando apresenta um bolo decorado com o mapa de Cuba, que ao ser repartido entre todos pelo anfitrião Roth, simboliza sem a necessidade de que seja dita uma única palavra, a divisão do negócio dos jogos de azar de todo um país entre lideres mafiosos. A simbologia da cena remete também à uma alegoria da Ultima Ceia, só que composta exclusivamente por discípulos de Judas, dispostos a se traírem mutuamente até o final dos tempos para alcançarem os seus objetivos.

 



A cena está baseada em um evento real, conhecido como a Conferência da Havana, quando em 1946 se reuniram no Hotel Nacional de Cuba os lideres de 23 diferentes grupos mafiosos de Nova Iorque, Chicago, Nova Orleans, Nova Jersey, Buffalo e Tampa para discutirem negócios, assuntos políticos e normas de atuação. O quarto 211 do Hotel Nacional de Cuba era a residência oficial de Lucky Luciano, considerado o fundador do Sindicato do Crime nos anos 30. A suíte conserva até hoje sua cama de estilo imperial, parte do mobiliário da sala, e a porta do quarto comunicante, ocupado de forma esporádica por Frank Sinatra, quando visitava Luciano na ilha. O personagem de Hyman Roth está baseado em Meyer Lamsky, chefe do sindicato do crime por parte dos judeus e principal assessor financeiro, responsável pela implantação de diverso processos de lavagem de dinheiro, envolvendo além dos investimentos em cassinos e hotéis, participações societárias em grandes empresas americanas de capital aberto. Lamsky morreu de cancer aos 85 anos sem nunca ter sido condenado em nenhum processo criminal mais sério do que jogo ilegal. Pouco antes da premiere de Godfather 2 em 1974, ele telefona e felicita o ator Lee Strasberg, brincando que poderia tê-lo representado de uma forma mais simpática.

 



Em Cuba, Lamsky era o proprietário do Hotel Riviera, cuja varanda é recriada na famosa cena de Godfather 2 descrita anteriormente. Sua inauguração em 10 de dezembro de 1957 contou com a presença da atriz americana Ginger Rogers e a direção musical de Jack Cole. Seu cassino era, quando de sua inauguração, o mais moderno em um hotel fora da cidade de Las Vegas, e seu projeto de arquitetura de Wayne McAllister, responsável pelo desenho dos hotéis cassino Fremont, Desert Inn e Sands, todos em Vegas. Com 352 quartos distribuídos em 18 andares e uma bela piscina ao ar livre com plataforma de saltos, o Riviera segue despontando em meio ao famoso malecón da Havana, sendo administrado atualmente pela rede espanhola Iberostar.

 



Meyer colocou o seu irmão Jack Lamsky para administrar o Hotel Nacional de Cuba, onde improvisaram um cassino no Salão Vedado, cuja roleta faz hoje parte de um museu da mafia no próprio hotel. O Nacional foi construído pela empresa americana Purdy and Henderson em 1930, durante o governo de Gerardo Machado, sendo inicialmente administrado pela mesma empresa responsável pelo Plaza e o Savoy de Nova Iorque, em uma época em que Cuba já era um importante destino turístico para norte americanos. Comprado por uma holding de investidores em 1955, foi cedido em administração à Lamsky durante o governo de Batista. Nacionalizado por Fidel Castro em 1960, o hotel é administrado atualmente pela empresa cubana Gran Caribe, e é visita imprescindível para quem viaja a Havana.

 



Tampouco foi construído pela máfia o Hotel Sevilla, embora sua história durante alguns anos se confunda com esta organização criminosa. Inaugurado em 22 de março de 1908, o Hotel Sevilla era o mais luxuoso da Havana no início do século XX. Em 1919 foi comprado por John Bowman, em conjunto com o edifício ao lado, para elevar sua capacidade total para 178 quartos, e reabrir em 1924 como Hotel Sevilla Biltmore Havana. John Bowman era o Presidente de Bowman Biltmore Hotels, e construiu emblemáticos hotéis de luxo, alguns deles ainda hoje em funcionamento, tais como o Providence Biltmore de Rhode Island em 1922, o Los Angeles Biltmore em 1923, o Atlanta Biltmore em 1924, o Miami Biltmore em 1926, e em Nova Iorque o Biltmore em 1919 e o Roosevelt em 1924. Sua empresa era uma sociedade de capital aberto, e em 1939 as ações do Hotel Sevilha Biltmore foram compradas pelo mafioso italo-uruguaio Amieto Batistti y Lora, que fez do hotel o seu quartel general para a expansão de seus negócios ilícitos relacionados ao jogo e à prostituição organizada, se associando posteriormente ao também mafioso Santo Trafficantte Jr. para a operação do cassino. Atualmente, o Hotel Sevilla é administrado pela Accor com a bandeira Mercure, com um projeto em andamento para sua conversão em um boutique MGallery by Sofitel.

 



Santo Trafficante Jr. participou da Conferencia da Havana em 1946 e era um dos principais capos mafiosos dos Estados Unidos, consolidando um império que havia sido iniciado por seu pai, Santo Trafficante Sr.. Seu território principal era Tampa, mas mantinha negócios por toda a Florida. Em Cuba, além de administrar o cassino do Hotel Sevilla, era o proprietário do Hotel Capri e do Hotel Deauville, mantendo ainda o controle dos cassinos do Cabaret Tropicana, do Hotel Comodoro e do Sans Souci Nightclub. Estes negócios eram na prática compartilhados entre vários sócios. No Deauville, o cassino era operado por Joe Silesi, membro da familia Gambino, uma das cinco que controlavam Nova Iorque. No Capri estavam, além de Trafficante, Nicolás Di Constanzo, Charles Turín e Santino Masselli do Bronx. Como imagem publica do Capri, figurava o ator George Raft, famoso por atuar como gangster em diversos filmes, e possivelmente com uma boa participação neste negócio. Atualmente, o Capri é administrado pela espanhola NH, o Comodoro pela empresa cubana Cubanacan, e o Deauville por Gran Caribe, com comercialização pela espanhola Hotusa,

 



Inaugurado em março de 1958 com uma cerimonia que durou 5 dias e teve a presença do próprio Conrad Hilton (na foto, com a atriz Dorothy Johnson), o Habana Hilton era na época o maior e mais alto hotel da América Latina, com 630 quartos, dos quais 42 suites, cassino, 6 restaurantes e bares, uma moderna galeria comercial e garagem para 500 automóveis. O empreendimento foi 100% construído com recursos do Fundo de Pensões dos Trabalhadores do Setor de Gastronomia de Cuba, e constituía a principal aposta de Batista para anunciar ao mundo que Cuba era um local tão seguro para investimentos, que até a Hilton estava presente. Há versões de que Trafficante Jr. operava indiretamente o cassino, embora oficialmente tenha havido uma licitação, na qual teriam sido descartados todos aqueles vinculados com o crime organizado.

O hotel foi tomado em 8 de janeiro de 1959, apenas alguns meses depois de sua abertura, pelas tropas revolucionárias, que estabeleceram no empreendimento o seu quartel general, ocupando Fidel Castro por 3 meses a suite 2224, depois de quase três anos acampado na Serra Maestra. Esta suite permaneceu para sempre a sua disposição, e hoje é um museu, com a mobília original usada então pelo Comandante. Posteriormente, em junho de 1960, Fidel anunciou no próprio restaurante do hotel sua nacionalização e a mudança de nome para Habana Libre, em homenagem aos fatos históricos ali sucedidos. Desde 1997 o hotel é administrado por Sol Meliá com a marca Tryp, como Tryp Habana Libre.

 



A vitória das forças revolucionárias pegou de surpresa Lamski e os demais mafiosos estabelecidos em Havana, fazendo com que perdessem uma quantidade significativa de dinheiro e recursos. Há um diálogo entre Michael Corleone, Hyman Roth e Johny Ola que sintetiza à perfeição este momento histórico:
 

Michael Corleone: Eu vi uma coisa interessante. Um rebelde pego pela polícia militar preferiu explodir uma granada que levava no casaco a ser preso. Ele se matou e levou consigo o capitão da polícia que comandava a operação.
Johnny Ola: Esses rebeldes são todos loucos.
Michael Corleone: Pode ser. Mas eu pensei: os soldados são pagos para lutar, os rebeldes não.
Hyman Roth: E o que isso te diz?
Michael: Que eles podem ganhar.
Hyman Roth: Este país teve rebeldes nos últimos 50 anos. Está no sangue deles, acredite em mim, eu sei. Tenho vindo aqui desde os anos 20. Quando você era bebê, exportávamos o melaço de Havana com os caminhões do seu pai.


Ao contrário do que previa Lamsky (Roth) e o grupo de mafiosos que ele representava, Fidel Castro reescreveu a história de Cuba, deixando para trás anos de conivência entre o crime organizado e o governo cubano. A lei hoteleira 2074 de 1955 oferecia incentivos fiscais, licenças de cassino e empréstimos do governo a fundo perdido a todos que se dispusessem a investir ao menos U$1.000.000 em hotéis, ou U$200.000 em restaurantes e nightclubs. A proporção era de 1 dólar aportado pelo governo de Batista para cada dólar aportado pelo investidor. Seria perfeito e arrojado se não fosse a corrupção envolvida. Batista não era apenas um facilitador, mas um sócio da operação, um capo da Mafia cujo território era a ilha de Cuba. Sua participação estimada por historiadores dedicados ao assunto era de 10% nas operações de Santo Trafficante Jr. e 30% nas de Meyer Lamsky. Quando escapou de Cuba levou consigo uma fortuna pessoal estimada em U$300 milhões, que lhe permitiu viver confortavelmente até o final dos seus dias em um dourado exílio em Marbella.

Mas engana-se quem atribui ao turismo ou aos cassinos essa riqueza pessoal. Por mais que Cuba fosse uma potência turística, não havia ainda nem a malha aérea, nem o volume de atividade turística que caracteriza o setor na atualidade. Em 1956, um bom ano de turismo para Cuba, a ilha recebeu 250 mil visitantes estrangeiros, contra os 3 milhões de turistas que visitaram o país em 2014. Nesse mesmo 1956, a arrecadação do setor foi, de acordo com os dados oficiais, de 30 milhões de dólares, valor que não representava nem 10% do produzido pela industria da cana de açúcar. Com certeza os interesses americanos eram muito mais amplos do que o setor turístico, como se pode observar por estas declarações do então senador John Kennedy durante um jantar do Partido Democrata em 1960 em Cincinnati:

"No início de 1959 , as empresas norte americanas possuíam ao redor de 40% das terras cubanas destinadas ao cultivo de cana de açúcar—praticamente todas as fazendas de gado—90% das minas e concessões de mineração—80% do fornecimento de energia elétrica—praticamente toda a industria e distribuição do setor de petróleo—e representava dois terços de todas as importações de Cuba."

Hotéis e cassinos eram uma ponta do iceberg, que nunca foram citados por Fidel Castro nos anos de combate à ditadura de Batista. Havia uma preocupação muito maior com a reforma agraria do que com a proibição do jogo, com a criação de uma assistência social digna, do que com a estigmatização dos cassinos, que só vieram a ser proibidos quase dois anos depois do triunfo da Revolução. Conta-se que a Mafia teria feito seu aporte à guerrilha de Castro, esperando que caso chegasse ao poder mantivesse intocados os seus interesses devido aos compromissos assumidos. Tipo aquela empresa que faz doações a dois partidos com programas de governo totalmente distintos. Houve com certeza um erro enorme de calculo ao subestimar as motivações de cunho socialista da revolução liderada por Fidel Castro. O fato é que as previsões de Lanski não se concretizaram, e o seu grupo saiu de Cuba sem tempo de recuperar o seu significativo investimento, beneficiando indiretamente ao grupo rival que apostou por Las Vegas. Lamski jamais voltou a entrar no Hotel Riviera depois daquela emblemática noite do Réveillon de 1959. Seus herdeiros reclamam hoje a devolução do hotel ou o pagamento de uma indenização, com base na lei americana Helms-Burton. De acordo com um dos principais advogados americanos envolvidos no processo, Cuba deveria hoje em valores atualizados U$8 bilhões a investidores americanos que tiveram confiscadas suas propriedades, enquanto que o governo cubano afirma, por sua vez, estar no direito de reclamar uma quantia ainda maior aos EUA por prejuízos causados em 60 anos de embargo.

No filme Havana de Sidney Pollack de 1990, onde Robert Redford vive um jogador profissional que testemunha aquela semana derradeira da Revolução, há uma suposta frase de Lamski, que demonstra soberbia ao negligenciar os atributos de Cuba como destino:

"Nós inventamos a Havana, e podemos perfeitamente movê-la a outro lugar se Batista não é capaz de controlá-la"

Cuba e Havana não haviam sido inventados por Lamski e seu grupo. Ao contrário, eles se apropriaram de empreendimentos emblemáticos que já existiam, como o Nacional e o Sevilla, que demonstram a força do destino muito antes de sua chegada à Cuba e da ascensão de Batista ao poder. O Cabaret Tropicana havia sido aberto em 1939, sete anos antes da Conferência da Havana de 1946. A máfia pode ter se apropriado do turismo em Cuba, mas não inventou o destino. Cuba tem atributos únicos, que nas palavras de Conrad Hilton poderíamos sintetizar como "Location, location, location". São apenas 150 os quilômetros que separam Havana de Miami, ou 2443 kms entre o centro geográfico de Cuba e o dos Estados Unidos. Para termos uma idéia, Jericoacoara está a 3100 kms de São Paulo. Como a maior das ilhas caribenhas, Cuba tem 5800 kms de litoral, a sua maioria constituído por praias. O Brasil, com uma superfície na qual caberiam 78 Cubas, tem 7000 kms de litoral, ou seja, apenas 20% a mais de costa para 7800% a mais de território. O perímetro aumenta pela enorme quantidade de cayos, ilhas rasas unidas à ilha central por pontes ou aterros, como Varadero e Cayo Coco. Como a extensão de Cuba de ponta à ponta é de 1250 kms, podemos facilmente calcular a praticidade das distâncias entre os diferentes destinos de praia dentro do país. A verdade é que Cuba é um arquipélago, composto por mais de 4000 ilhas e enseadas, com uma capacidade única de turismo náutico, ainda não utilizada devido ao bloqueio. Do ponto de vista de arquitetura, por outro lado, o patrimônio histórico de Cuba é único no Caribe e um dos melhores preservados da América Latina. Em Cuba, onde não houve o boom da construção civil nos anos 60 e 70, a sensação ao andar pela ilha é a de uma viagem no tempo, intensificada pela presença dos carros americanos, ícones do seu passado.

Além da localização, o grande diferencial de Cuba é o povo cubano. Hospitaleiros por natureza, recebem muito bem ao estrangeiro, fascinando a todos com seu constante bom humor, no que pese todas as suas adversidades do dia a dia. Sua cultura musical é única, só comparável à brasileira na América Latina. A Revolução Socialista de Fidel Castro deu a Cuba a melhor ferramenta para construir o seu futuro no turismo e em outras atividades econômicas. A erradicação do analfabetismo e um elevado nível cultural da sua população, sendo expressivo o número de pessoas que falam fluentemente o ingles dentro da atividade turística. Esta mesma educação é a que permite à Cuba um alto nível de segurança, item imprescindível para o desenvolvimento do turismo. Desde 1990 com a queda do campo econômico socialista, o país voltou a investir fortemente no setor hoteleiro, contando hoje com um total de 381 hotéis, que representam mais de 72.000 apartamentos turísticos, com uma previsão de inaugurar 290 novos empreendimentos até o ano de 2030 .

 



Quanto à legalização do jogo em Cuba, ela não se faz de momento necessária ou oportuna, já que o ponto fundamental não é criação de novos atrativos, mas a construção de um cenário de liberação irrestrita de viagens para os cidadãos americanos, que são proibidos por seu governo de visitarem o país, sob pena de uma fortíssima multa. Passados mais de 60 anos do triunfo da Revolução, esta proibição absurda ainda se encontra em vigor.

 



Desde 30 de abril de 1946 o jogo é proibido no Brasil, com o argumento de ser uma condição degradante para o ser humano, além de um facilitador para a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro. Em uma época em que se quebraram tantos tabus, é curioso como o jogo segue estigmatizado, sem uma verdadeira sensibilidade da sociedade com relação ao que representaria para a criação de empregos e fomentação do turismo. Dos 193 países membros da ONU, apenas 37 proíbem os jogos de azar. Dos 20 países mais ricos do mundo, 93% tem os jogos legalizados. As notícias recentes do nosso país demonstram que o desvio pode ocorrer na Petrobras, na compra de material médico para combater o Covid-19, no pagamento de salário dos cargos de confiança, na compra de carros e armas para combater o crime. No Brasil, a legalização do jogo funcionaria como uma forma de retenção do turismo emissor, e de captação do turismo receptivo de sulamericanos que buscam este atrativo em suas viagens internacionais ao Caribe e aos Estados Unidos. Os jogos de azar devem ser liberados com seu devido marco regulador, e as auditorias devem estar presentes, como em todos os processos da Petrobras, do Ministério da Saúde, das verbas do legislativo, etc, etc.

Não será a liberação do jogo de azar o que tornará o nosso país mais ou menos ético, assim como não foi o jogo quem corrompeu ao governo cubano, mas sim os governantes corruptos de Cuba que buscaram os parceiros e os métodos menos adequados para desenvolver esta atividade no seu país, replicando a insensibilidade política e social com que se comportavam em outros setores. Conforme nos fez ver Coppola, o mafioso vai a missa, celebra comunhões e casamentos, se preocupa amorosamente pela família, mas ao mesmo tempo mata o inimigo para manter o seu posicionamento no negócio. As aparências enganam. É hora de deixar de lado a ideologia e o lugar comum, e sermos mais pragmáticos, buscando implantar processos que permitam aumentar o número de empregos e a geração de riqueza no nosso país. Se acreditamos que somos tão corruptos, que a legalização do jogo no Brasil jamais será uma boa idéia, talvez seja a hora de pensarmos fora da caixa, e legalizarmos o jogo justamente para implantarmos um processo de auditoria e fiscalização tão perfeito, que sirva de modelo para todas as atividades, e promova a redução do nível de corrupção em geral.

 

Francisco Calvo
Diretor de Operações Rio Quente Resorts, Aviva

Profissional com ampla experiência no setor hoteleiro, apresentando resultados comprovados em gestão de pessoas, de processos, de recursos materiais e resultados financeiros. Vivência profissional tanto no Brasil como no exterior, com passagens por Europa, Caribe e Brasil. Sua experiência abrange hotéis de lazer, de negócio e de eventos. Hotéis administrados e próprios. Resorts convencionais e com estrutura de Time Share. Estrutura Operacional de Parques. Desenvolvimento e Implantação.