MAR 19 DE ENERO DE 2021 - 05:44hs.
O magnata morreu aos 87 anos

Sheldon Adelson, o homem que mais lobby fez pela reabertura do cassino no Brasil

Adelson sempre foi um dos maiores interessados na ideia de criar um marco legal autorizando a instalação de cassinos em IRs no Brasil e fazia lobby para a reabertura da atividade. Em 2017, se reuniu com o presidente Temer em Brasília e depois visitou São Paulo e Rio de Janeiro para mostrar seus projetos e prometer fortes investimentos. Também recebeu em Las Vegas, em 2019, o atual Ministro de Turismo Gilson Machado Neto. No congresso, ainda se tramita uma lei de cassinos em resorts que seus opositores chamam de “Lei Sheldon Adelson”.

O empresário e importante doador para políticos republicanos dos Estados Unidos, Sheldon Adelson, morreu nesta terça-feira (12), por complicações relacionadas ao câncer, informou sua empresa. Ele tinha 87 anos e havia tirado uma licença, na última semana, para retomar o tratamento de um linfoma. Adelson era presidente e CEO da Las Vegas Sands, empresa do ramo de cassinos e resorts.

Adelson foi o primeiro funcionário da Sands. Desde então, a empresa cresceu e hoje contrata 50.000 pessoas. "Seu impacto na indústria será eterno", disse a Las Vegas Sands. O casal é amigo do presidente Donald Trump, que também possui um resort em Las Vegas. 

O dono do grupo Las Vegas Sands Inc foi um dos principais financiadores do movimento conservador nos EUA. Foi dele a ideia de transferir a embaixada dos EUA de Tel Aviv para Jerusalém. Em 2012, ele desembolsou 150 milhões de dólares com candidatos republicanos e, em 2016, investiu 25 milhões de dólares na campanha de Donald Trump. Para a reeleição de Trump, o magnata doou pouco mais de 1 milhão de dólares.

Adelson sempre foi um dos maiores interessados na ideia de criar um marco legal autorizando a instalação de cassinos em IRs no Brasil. Ele fazia lobby para a reabertura da atividade, defendendo o fim da proibição imposta em 1946. 

O CEO do Grupo Vegas Sands Corp participou no 2017 de um almoço com o Presidente da Frentur, o Deputado Federal Herculano Passos, que intermediou as reuniões entre Adelson e os presidentes da República, Michel Temer, e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. 

 

 

Em 2018, durante uma visita ao Rio e a Brasília, teve encontros com figuras como o então prefeito Marcelo Crivella. O bilionário americano deixou claro quais eram seus interesses no país: “Estou aqui para considerar o investimento em um ou mais resorts integrados. O LVS quer que os cassinos fiquem restritos aos complexos turísticos – o modelo integrado que, para a companhia, é a única que pode trazer os benefícios desejados”.

“Recebi a visita do Sheldon Adelson e ele está interessadíssimo. A ideia dele era comprar [a área do aeroporto] Santos Dumont. Tirei isso da cabeça dele, para ele comprar o Porto Maravilha. E nós termos aqui um cassino tipo o que ele fez em Cingapura, onde 5% é o cassino, e tem centro de exposições, centro de convenções, hotel com duas torres enormes, de 50 metros, e piscina lá em cima. Ele me disse que fatura mais em Cingapura do que todos os cassinos de Las Vegas. Tá louco para investir. Compromisso dele: investir US$ 10 bilhões e gerar 50 mil empregos”, revelou Crivella.

Em 2019, o presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), Gilson Machado Neto, e Adelson discutiram as vantagens do Brasil criar um marco legal autorizando a instalação de cassinos atrelados a resorts. Em mais uma importante reunião em Las Vegas, Sheldon explicou que a legalização dos cassinos em resorts de Las Vegas e nos EUA. “O modelo resorts/cassino pode ser algo importante e merece ser debatido de maneira séria e transparente no Brasil”, ressaltou Machado Neto.

Em janeiro de 2020, a comitiva brasileira liderada pelo senador Flávio Bolsonaro foi recebida em Las Vegas por Rob Goldstein, CEO do Grupo LVS, do Adelson. 'Estão dispostos a investir cerca de US$ 15 bilhões ainda em 2020, basta fazermos nosso dever de casa', disse o filho do presidente que mostrou seu claro apoio à legalização dos cassinos integrados no Brasil. Ele esteve acompanhado pelo Ministro de Turismo, Gilson Machado, e o deputado Hélio Lopes.

O forte lobby surtiu efeito no governo, com figuras como o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, indicando apoiar o fim do veto. Até mesmo Bolsonaro, que durante a campanha chegou a dizer que os cassinos serviriam para "lavar dinheiro" e "destruir famílias" no Brasil, parece ter mudado de ideia. O assunto, no entanto, levanta questionamentos entre a base evangélica.

 

 

No Congresso, a “Lei Sheldon Adelson”

A pauta sobre a legalização dos cassinos esquentou o 2019 no país depois que começou a tramitar na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 530/2019, de autoria do deputado federal Paulo Azi (DEM-BA), que autoriza a “exploração, em todo Território Nacional, de jogos de fortuna exclusivamente em cassinos estabelecidos em resorts integrados”, exatamente o modelo de negócios capitaneado por Sheldon Adelson.

Os resorts, de acordo com o texto, “são empreendimentos que se compõem de meios de hospedagem e de um conjunto de instalações, serviços e produtos voltados ao entretenimento do visitante, tais como centros de convenções, cassinos, spas, restaurantes, bares, shoppings, galerias de arte, museus, teatros, espetáculos musicais, campos de golfe, praças esportivas, parques temáticos e parques aquáticos”.

No texto do projeto, Paulo Azi justifica que o objetivo da proposta “parte da premissa que o jogo já existe no Brasil, mas é majoritariamente ilegal e minoritariamente legalizado por meio de loterias operacionalizadas pela União (Caixa Econômica)”. Segundo o projeto, o que se pretende não é criar algo novo, “mas legalizar, regulamentar e tributar essa parte majoritária, de forma a trazer para a formalidade uma atividade já em curso, além de fortalecer e dinamizar o turismo no Brasil”.

Mas o projeto de lei casa tanto com os interesses e o perfil dos negócios do grupo LVS que a proposta recebeu o apelido de “Lei Sheldon Adelson”. Além de restringir a legalização do cassino dentro de resorts, o projeto restringe o número de licenças para cada cidade: “Um resort cassino por Estado ou no Distrito Federal, com população até 15 milhões de habitantes; dois resorts cassinos por Estado ou no Distrito Federal, com população entre 15 quinze e 25 milhões de habitantes; três resorts cassinos, no máximo, por Estado ou no Distrito Federal, com população superior a 25 milhões de habitantes”, diz o texto.

Uma pessoa que acompanhou as negociações do grupo no Brasil contou à Pública que essas foram as duas exigências de Sheldon Adelson: que a legalização fosse restrita ao modelo de cassinos integrados a resorts e que o número de licenciamento para cada cidade fosse restrito. Apesar de ter se reunido com Sheldon Adelson em duas ocasiões, o deputado federal Herculano Passos disse que “em momento algum” foi “abordado pelo empresário, ou quem quer que seja, para apresentar ou intermediar apresentação de projeto sobre cassinos, apesar de defender a causa”.

Fonte: GMB