SÁB 28 DE NOVIEMBRE DE 2020 - 07:41hs.
Informe especial do site esportivo

UOL recorda a história das "relações íntimas" do jogo do bicho com o futebol carioca

Chamado de 'a maior loteria ilegal do mundo' e vivo há quase 130 anos, o jogo do bicho segue presente no Brasil, ainda que de maneira ilegal. Hoje, a UOL Esporte oferece um informe especial em que conta a história das origens da atividade a partir de Castor de Andrade, o mais famoso e poderoso bicheiro do País nas décadas de 60, 70 e 80. Também descreve a relação com o futebol e o carnaval, a atualidade e o futuro de uma modalidade que geraria uma grande arrecadação se fosse liberada.

O informe do jornalista Bernardo Gentile, da UOL Rio de Janeiro, se intitula “Quando o jogo era do bicho” e descreve o Castor de Andrade como “o Eurico das décadas de 60, 70 e 80”. Ele foi o mais famoso e poderoso bicheiro do Brasil e listado como segundo Homem mais rico do Brasil em meados dos anos de 1980.

Destaque do Guarani em 1986, o recém adulto Craque Neto, de 20 anos, passou brevemente pelo Bangu. O jogador, que viria a ser ídolo do Corinthians na década seguinte, viveu três meses nos gramados da zona oeste do Rio de Janeiro. Assim que pisou em Moça Bonita, Neto foi encontrar Castor de Andrade, o patrono do clube, na sala da presidência. Além das boas vindas, recebeu as luvas da negociação. Para sua surpresa, em uma mala de dinheiro vivo.

Patrono do Bangu, Castor de Andrade investiu tanto dinheiro no clube da zona oeste que o transformou em uma das grandes potências do futebol brasileiro dos anos 1980. A questão é que os fundos para esse investimento vinham do jogo do bicho —contravenção da qual Castor foi um dos maiores expoentes no país. Naquela época, bicheiros como ele faziam suas próprias regras. O poder estava enraizado em todas as esferas da sociedade. Incluindo o futebol.

O jogo do bicho foi criado pelo barão João Batista Viana Drummond, fundador do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. O intuito da brincadeira era arrecadar dinheiro para manter os animais no recinto. Todos os dias, sorteava-se um bilhete com a figura de um animal. Ganhava quem, por sorte, tivesse o bichinho em questão em seu bilhete.

A popularização da jogatina aconteceu com rapidez. Posteriormente, os animais foram associados a séries numéricas da loteria, as pessoas passaram a usar sonhos e coincidências para escolher o seu bicho e o jogo passou a ser praticado largamente fora do zoológico —transformando o Rio de Janeiro na "capital do jogo do bicho".

No futebol, o jogo do bicho chegou paralelamente ao profissionalismo. Até 1910, o esporte era amador e, à medida que a popularidade foi crescendo, a rivalidade e a vontade de investir nos times aumentava tanto quanto.

Para aumentar o emprenho dos jogadores, os sócios dos clubes ofereciam recompensas em dinheiro em caso de vitória. Para que não fosse institucionalizado o "prêmio", aqueles atletas amadores diziam que a quantia que entrava havia sido ganha no "jogo do bicho", legalizado à época.

Essa é a origem do termo "bicho" no futebol, até hoje usado para identificar a parte variável do pagamento a jogadores de futebol —o termo se refere a um incentivo financeiro aos atletas em vitórias ou na obtenção de objetivos, como um título ou a classificação para torneios variados. Normalmente, a quantia é paga com dinheiro vivo.

A relação entre o jogo de azar e o esporte, porém, chegou ao ápice no Brasil quando os bicheiros mergulharam de cabeça no mundo do futebol. A ligação com um clube se tornou uma maneira de os contraventores ganharem apoio e aceitação popular em meio a sua principal função. Vale ressaltar que as duas atividades cresceram juntas: um precisava de popularidade, o outro, de dinheiro.

Chamado de "a maior loteria ilegal do mundo" e viva há quase 130 anos, o jogo do bicho segue vivo em outra rotação. Ainda é fácil encontrar uma banca para fazer uma aposta em bairros do Rio de Janeiro. Os bicheiros de hoje, porém, têm dinheiro investido em um número muito maior de atividades legais e tocam a vida com mais tranquilidade.

Além disso, a movimentação para a liberação das apostas pode mudar o jogo do bicho. Até 2018, sites de apostas esportivas eram considerados contraventores como os bicheiros. O ex-presidente Michel Temer, no entanto, iniciou o processo para legalizar a atividade. Em decreto de dezembro de 2018, o governo legalizou as apostas online, mas deu prazo de dois anos para a regulamentação do mercado, a ser feita por técnicos do Ministério da Fazenda. O prazo pode ser prorrogado por mais dois anos.

A pauta tem sido debatida no Congresso e gera divisão. Ainda não há indicativo de quando o jogo vai, de fato, ser legalizado. O fato é que o presidente Jair Bolsonaro tem sido pressionado por lobistas —uma vez que a liberação geraria uma boa arrecadação.

Fonte: GMB / UOL Esportes