QUA 17 DE JULHO DE 2019 - 19:22hs.
Percy Wilman, conselheiro especial Latam da Betgenius

O Brasil deve aprender com os erros da Europa sobre a proteção ao jogador

A proteção do consumidor foi um assunto que esteve em alta na agenda da edição de 2019 do BgC, realizado no mês passado em São Paulo. Em um artigo exclusivo para a Games Magazine Brasil, Percy Wilman, Conselheiro Especial Latam da Betgenius, discute como a indústria brasileira pode definir o padrão a ser seguido pelos demais países da região. “O Brasil tem a oportunidade de aprender com os mercados europeus e estabelecer, desde o início, um parâmetro de proteção eficaz para o consumidor”, diz Wilman. 

No BCG 2019, a importância de definir a política de proteção ao jogador foi um assunto que todos concordaram de forma unânime. Os participantes do evento reconheceram que, com o mercado de apostas esportivas prestes a ser legalizado, existe a responsabilidade de criar um ambiente que proteja os públicos mais vulneráveis, como menores de idade e pessoas suscetíveis ao vício.

Ficou claro para todos os presentes que a indústria brasileira tem uma oportunidade importante para garantir uma percepção pública nacional positiva sobre o assunto.  Algo que se tivesse sido feito na Europa, poderia ter evitado muitos contratempos nos últimos anos.


Publicidade no esporte

Nos últimos 18 meses, alguns mercados europeus enfrentaram grande reação pública e regulatória. A publicidade de jogos de azar tornou-se um problema na cena política de países como Reino Unido, Itália e Espanha.

As marcas de apostas e jogos de azar há muito utilizam os esportes para promover seu nome. O exemplo britânico é impressionante: 60% das equipes das duas principais ligas profissionais de futebol são patrocinadas por empresas de jogos de azar. Já no Brasil, alguns clubes de futebol profissional já anunciaram a iGaming como nova patrocinadora de camisetas desde que as apostas esportivas foram sancionadas, tornando o patrocínio de camisetas um grande negócio.

Porém, a publicidade no esporte não é, de forma alguma, limitada a patrocínio de camisetas, mas também pode se estender a painéis publicitários em estádios e anúncios durante a cobertura da TV, por exemplo. Como grande oportunidade de marketing para as marcas, o mercado deve prestar atenção à lição aprendida na Itália, onde a superexposição em torno dos jogos de futebol, cujo grande parte do público tem menos de 18 anos, levou à proibição total do patrocínio de futebol relacionado a apostas.

Se esse tipo de publicidade não for fiscalizado por aqueles que estão no centro da indústria, o setor brasileiro corre o risco de sofrer o mesmo tipo de reação. Ao lançar esses patrocínios e campanhas, os operadores devem se perguntar: estamos nos esforçando o suficiente para proteger os consumidores vulneráveis ​​e, de fato, a reputação do setor?


Vigiando o mundo online

Segundo a empresa de consultoria Regulus Partners, as empresas de jogos de azar gastam cinco vezes mais em marketing online do que na TV. A internet é onde o moderno fã de esportes mora, já que é nesse ambiente que ele encontra atualizações constantes de notícias, estatísticas e jogos ao vivo. Portanto, o mundo digital é o canal mais eficiente para a aquisição e retenção de clientes.

Mas, mais uma vez, há lições para o Brasil aprender nesse campo. Como a verificação de idade para se inscrever em muitas mídias sociais está abaixo do padrão necessário, a maioria dos sites não exige nenhuma informação pessoal. Por isso que os operadores e suas agências de marketing têm a obrigação moral de se responsabilizar ​​pela compra de espaço publicitário nesse meio. Isso inclui nunca executar campanhas em mídias como Twitch e Steam, onde o público está mais próximo de 13 do que 18 anos, e evitar conteúdo como desenhos animados e animais que possam atrair menores de idade.

Uma tendência emergente na Europa agora é o marketing de influência. Em seus stories no Instagram e perfis no Twitter, celebridades com muitos seguidores promovem ofertas de inscrição da iGaming e ganham um retorno a cada conversão. E, mesmo que intenção não seja visar explicitamente os menores de idade, alcançá-los acaba se tornando uma consequência. Assim, se a indústria de apostas não reagir rapidamente e regular o tom e o conteúdo desses anúncios, a publicidade nas mídias sociais também pode ser banida por completo.


Apoio para jogadores potencialmente em risco

No início deste ano, a Spelinspektionen, agência reguladora sueca, lançou o Spelpause.se, um registro nacional de autoexclusão, através do qual as pessoas optam por não receber mensagens de marketing de operadoras de apostas e são impedidas de acessar todos os sites de jogos de azar.

A Suécia liderou o caminho empregando tal iniciativa e, sem dúvida, será seguida em um futuro próximo. Mas, em mercados mais amplamente regulamentados, como do álcool e do tabaco, a interação com jogos de azar é complementada por mensagens que promovem a responsabilidade. E, em apostas esportivas e produtos de cassino nesses territórios, as ferramentas de autoexclusão, como depósito autoimposto, perda e limites de tempo, são agora padrão da indústria. Isso deve ser exigido dos participantes do mercado brasileiro assim que for regulamentado.

As principais operadoras globais, incluindo a Paddy Power Betfair, estão dedicando tempo e recursos às capacidades que lhes permitem sinalizar e encontrar os jogadores problemáticos com base em um conjunto de gatilhos comportamentais. Também estamos investindo nessas capacidades em nossa própria plataforma de tecnologia.

Aqueles que sofrem com dependência merecem apoio. E, como indústria, de alguma forma fornecemos isso, mas não somos perfeitos. Mas o Brasil também deve aproveitar a oportunidade de aprender com os mercados europeus e definir o padrão para uma proteção eficaz do cliente desde o início de suas operações.


Percy Wilman, conselheiro especial Latam para Betgenius


Fonte: exclusivo Games Magazine Brasil