VIE 4 DE DICIEMBRE DE 2020 - 11:32hs.
José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral

Jogos de azar: vício ou virtude?

José Renato Nalini reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras (2019-2020), publicou este fim de semana uma contundente coluna de opinião no jornal Estadão em defensa da legalização dos jogos de azar no país. “Joga-se no Brasil e de forma intensa, permita-se ou não e é uma hipocrisia proibir-se sob argumento de que ele vicia. O retorno dos cassinos daria ocupação digna a milhares de pessoas no momento em que a Pátria enfrenta insuperáveis dificuldades”, assegura Nalini.

O filósofo Johan Huizinga (1872-1945) escreveu o livro “Homo Ludens – O jogo como elemento da cultura”, para dizer que o “homo sapiens” não é tão racional assim e que o “homo faber” não seria característica exclusivamente humana. O “faber” designa também enorme grupo de animais, que o digam as formigas e as abelhas.

Sugere que uma terceira função é tão importante como o raciocínio e o fabrico de objetos: o jogo. A noção de jogo é um fator distinto e fundamental, presente em tudo o que acontece no mundo. Para Huizinga, “é no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve”. Tanto que se serviu dessa convicção para elaborar e proferir o seu discurso de Reitor da Universidade de Leyden e a repetiu em conferências para as quais foi convidado em Zurique, Viena e Londres. Aqui, sua fala já se denominava “O jogo como elemento da cultura”. Assevera que a antropologia e as ciências a ela ligadas têm prestado muito pouca atenção ao conceito de jogo e à importância fundamental do fator lúdico para a civilização.

O jogo é um fato mais antigo do que a cultura. É uma função significante, ou seja, encerra um determinado sentido. No jogo há algo em jogo, que transcende as trivialidades e confere sentido à ação.

Indissociável ao jogo, o fator “divertimento”, que parece resistir a toda análise e interpretação lógicas. A essência do jogo é uma categoria absolutamente primária da vida, suscetível de ser identificada a partir do próprio nível animal.

Por isso é que a discussão a respeito da liberação do jogo no Brasil reveste aspectos muito mais abrangentes do que remediar a combalida economia, que foi à UTI depois da pandemia. É da natureza do jogo ser livre, ser expressão de liberdade. O que não significa desrespeito às regras. Todos sabemos bem o que significa a expressão “regras do jogo”.

Huizinga sintetiza as características formais do jogo, conceituando-o como “atividade livre, conscientemente tomada como “não-séria” e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total”. Tanto é verdade que o mundo inteiro joga. Inclusive os brasileiros jogam bastante.

Uma hipocrisia proibir-se o jogo sob argumento de que ele vicia. Quem tem propensão a se viciar, entrega-se à bebida, à droga, ao sexo, à política ou a qualquer outra atividade causadora de dependência.

Os brasileiros viajam para jogar em cassinos que geram vultosos recursos para os países que os exploram. Vegas, como os íntimos se referem a Las Vegas, é um espaço milionário, que atrai milionários e que testemunha o quão entranhado o jogo está na consciência humana.

Ignorar tal circunstância custa caro ao Brasil, que muita vez mergulha no obscurantismo de onde não é fácil sair. Platão já detectara essa vocação lúdica do ser humano. Para ele, a maneira mais certa de se viver lembrava um jogo: “…todos devem esforçar-se ao máximo por viver em paz. Qual é, então, a maneira mais certa de viver? A vida deve ser vivida como jogo, jogando certos jogos, fazendo sacrifícios, cantando e dançando, e assim o homem poderá conquistar o favor dos deuses e defender-se de seus inimigos, triunfando no combate”.

Joga-se no Brasil e de forma intensa, permita-se ou não. O poker na internet atrai milhões. As loterias formam imensas filas nas lotéricas, principalmente quando o prêmio é acumulado. O jogo é algo ínsito e instintivo aos humanos. A verdadeira civilização não existe sem o elemento lúdico. O filósofo Huizinga dizia que “a civilização será sempre um jogo governado por certas regras, e a verdadeira civilização sempre exigirá o espírito esportivo, a capacidade de fair play. O fair play é simplesmente a boa fé expressa em termos lúdicos”.

Nações mais desenvolvidas apreenderam isso e faturam fortunas com os jogadores do mundo inteiro, principalmente de países pretensamente defensores da moral e dos bons costumes, embora imersos em calamidades éticas, sociais, políticas, econômicas e sanitárias.

O jogo em si não é moral ou imoral. Imoral é permitir que brasileiros passem fome, não tenham moradia, nem saneamento básico, nem educação, nem saúde, nem segurança integral e fechar os olhos à situação paradoxal em relação aos jogos.

Joga-se bastante e de todas as maneiras. A urgência de se prover a população carente de uma continuidade no auxílio emergencial seria o gatilho para aprovar os projetos de liberação dos jogos online ou presenciais, que dormitam no Parlamento. A partir de janeiro, milhões de brasileiros ficarão sem o substitutivo da “renda mínima”, enquanto outros milhões – em evidente menor quantidade – continuarão a abastecer os cofres dos países em que o jogo é lícito.

Além disso, o retorno dos cassinos daria ocupação digna a milhares de artistas, compositores, instrumentistas, cantores, garçons, chefs de cozinha, toda a massa desalentada que se viu à míngua quando o entretenimento foi bruscamente interrompido pela peste.

Haverá discernimento para concluir que o jogo, característica indissociável da espécie, não deve ser encarado como vício, mas como virtude cívica, no momento em que a Pátria enfrenta insuperáveis dificuldades?

José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

Fonte: Estadão