MIÉ 30 DE SEPTIEMBRE DE 2020 - 13:09hs.
Ricardo Namen, ex-presidente do Comitê Nacional Pró-Legalização dos Cassinos

“A regulamentação do jogo no Brasil tem tudo para ser uma das mais modernas do mundo”

Em entrevista ao GMB, o empresário Ricardo Namen, que durante 18 anos presidiu o Comitê Nacional Pró-Legalização dos Cassinos no Brasil, fala da importância de o país regulamentar todas as atividades de jogos para benefício da sociedade na forma de “milhares de empregos e bilhões de reais em tributos”. Segundo ele, “poucas coisas no Brasil foram tão discutidas, estudadas e debatidas como a legalização dos jogos. Pessoalmente passei os últimos 38 anos da minha vida acompanhando em Brasília mais de uma centena de projetos sobre esse tema.'

GMB – Ricardo, você está há muitos anos na luta pela legalização do jogo no Brasil. Fale um pouco sobre essa trajetória.
Ricardo Namen
- Tudo começou em meados de 1980, quando fundamos o Comitê Nacional Pró-Legalização dos Cassinos no Brasil, que teve como primeiro presidente Ciro Batelli. Como naquele momento esse assunto era um tabu, a estratégia foi viajar por todo Brasil, promovendo encontros regionais junto a comunidades turísticas, empresários, imprensa e autoridades, procurando esclarecer a opinião pública dos aspectos positivos e negativos da legalização dos cassinos no Brasil. Posso dizer que incitamos o debate em tantas frentes distintas que a questão teve de passar a ser encarada pelo nosso Poder Legislativo.

Depois de dois anos fazendo esse trabalho, sentimos que deveríamos concentrar esforços em Brasília, procurando esclarecer os senhores parlamentares e membros do Executivo desses aspectos positivos para a partir daí diminuir a resistência a esse tema, que naquela época era bastante forte. Me mudei para Brasília e iniciei esse trabalho.

Tivemos a oportunidade de estar diariamente no Congresso Nacional e fomos batendo de "porta em porta" para falar individualmente com todos os deputados federais, além de senadores e inúmeras autoridades do governo. Foi um trabalho de "formiguinha", mas tenho convicção de que foi a partir dessa verdadeira campanha, onde demonstramos, dentre outros fatores econômicos, o alinhamento com a vontade popular majoritária dos brasileiros, que começou a diminuir a resistência e o tabu em torno do tema.

Continuamos fazendo esse trabalho ininterruptamente, e por anos percorrendo quase que diariamente os corredores do Congresso Nacional, defendendo essa bandeira, quando acabei assumindo a presidência do Comitê, entidade que eu tive a honra de presidir por 18 anos.

Durante esses anos todos, tivemos a oportunidade de viajar por mais de 70 países em todos os continentes, sempre estudando a operacionalidade do mercado de jogos, em especial a indústria de cassino e ainda promover dezenas de jornadas, encontros, seminários e palestras por todo Brasil.

Evidentemente que com essa experiência acumulada e conhecimento do mercado internacional acabou sendo inevitável vir a trabalhar na chamada "Gaming Industry". Passamos por Caesars Palace, IGT International, Sodak Gaming International, Vision Matic, Amaya Gaming e Rational Group.

Com relação aos outros jogos, como bicho, cassino, bingos etc., qual sua opinião sobre o assunto?
Me espanta muito quando ouço falar que a questão dos jogos no Brasil tem de ser mais bem debatida e mais bem estudada. Isso é um absurdo! Poucas coisas no Brasil foram tão discutidas, estudadas e debatidas como a legalização dos jogos no Brasil. Pessoalmente, passei os últimos 38 anos da minha vida acompanhando em Brasília mais de uma centena de projetos sobre esse tema.

A Comissão Especial da Câmara dos Deputados para tratar do Marco Regulatório dos Jogos no Brasil foi um dos mais complexo e profundos debates feito sobre esse tema em todo o mundo. Foram quase três anos ouvindo especialistas, órgãos governamentais, legisladores, ou seja, todos os segmentos do mercado. Autoridades de todo o planeta tiveram oportunidade de serem ouvidas por essa Comissão Especial.

O resultado desse trabalho foi um relatório final transformado em Projeto de Lei que, a meu ver, foi um dos mais bem feitos e bem elaborados projetos e que atendeu os anseios de todas as modalidades de jogos e todo o mercado.

 

 

Por que durante os trabalhos na Comissão Especial vimos você atuando fortemente pelo segmento do jogo online?
Passamos os últimos anos desenvolvendo um trabalho do qual me orgulho muito para a Pokerstars. Na verdade, em função de uma amizade pessoal com CEO da empresa Mr. David Baazov, aceitamos o convite para assessorar a firma no Brasil, cuja atividade já crescia exponencialmente e complicações legais assombravam constantemente a operacionalidade em solo brasileiro. Mesmo após a saída do David, nosso contrato foi mantido pelo seu sucessor, Mr. Rafi Ashkenazi.

Naquele momento havia um problema grave que comprometia a imagem da empresa. Solucionado esse problema, nos deparamos com a forte resistência do setor de cassinos buscando a exclusão do segmento do jogo "online" do texto final do "Marco Regulatório dos Jogos" que estava sendo elaborado na Comissão Especial, pois não havia consenso. Foi um trabalho de inclusão muito duro, difícil, porém exitoso.

Estas vitórias foram muito comemoradas por todos, não só da Pokerstars, mas por todo o mercado online do mundo. Entretanto, com relação a Pokerstars, prefiro não me manifestar mais, pois no momento estamos trabalhando em uma rescisão consensual com a The Stars Group e Flutter Entertainment, os atuais donos da marca.

Atualmente, eu me dedico mais à atividade "online", uma modalidade fascinante. No momento não posso revelar o nome das empresas para as quais estamos trabalhando, mas assim que possível eu divulgarei nossos novos projetos.

Como você vê a legalização das apostas esportivas no Brasil?
O mercado de apostas esportivas e o passo que o Congresso deu aprovando a medida provisória, talvez seja o mais importante na história da legalização dos jogos no Brasil. Parece que o governo e o Congresso começam a entrar em sintonia com a vontade majoritária da sociedade. É um passo gigantesco diante das décadas de inércia, e convida ao prosseguimento do debate que um dia culminará na legalização dos cassinos. O Brasil não pode mais viver naquele muito do faz de conta e seguir abdicando do gigantesco potencial econômico e turístico que a legalização promove.

O mundo inteiro já legalizou os jogos. O Brasil agora dá o primeiro passo e nos abre uma perspectiva de que gradualmente as outras modalidades sejam igualmente legalizadas e regulamentadas da forma que melhor atenda ao interesse público, pois sempre haverá um empresário para oferecer aquilo que a sociedade quer. Então, que seja de maneira legal. Abrimos uma perspectiva de que, quebrado esse primeiro obstáculo, as outras modalidades de jogos venham a ser aprovadas e regulamentadas pelo governo.

Já que você falou em regulamentação, qual seria sua percepção em relação à que o governo está preparando?
A morosidade que o governo tem demonstrado em apresentar a regulamentação definitiva, a meu ver, parece estar plenamente justificada pela maneira com que as autoridades brasileiras estão tratando o assunto.

As Consultas Públicas, as participações em eventos nacionais e internacionais, as audiências e a interlocução das principais entidades que representam o mercado, como Abrabincs, Abra, IJL, Ajes e Able, entre outras, sinalizam que a regulamentação do jogo a ser apresentada à sociedade tem tudo para ser uma das mais modernas do mercado em todo o mundo.

A única preocupação que tenho é de que a expectativa de abertura do mercado brasileiro - sem dúvidas um dos maiores do mundo - tenha principalmente um compliance rigoroso não somente para o empresário brasileiro, como também para os gigantes multinacionais do jogo.

Deixe sua mensagem final. Quando você acha que poderemos ter o jogo funcionando no Brasil?
Em primeiro lugar gostaria de passar uma mensagem de otimismo. É preciso entender que houve uma evolução fenomenal no modo com que a sociedade, a mídia e as autoridades enxergam atividade do jogo.

Antigamente se discutia se o Brasil deveria reabrir o jogo ou não. Esta discussão está superada. Hoje, se discute o caminho que o Brasil deve seguir: continuar com o jogo ilegal ou regulamentar de forma adequada todas as modalidades de jogo. Com isso, vamos gerar milhares de empregos, arrecadar bilhões de reais em tributos e acabar com uma das maiores hipocrisias do país.

Fonte: Exclusivo GMB