MAR 20 DE OCTUBRE DE 2020 - 23:34hs.
Romero Nascimento, presidente da ALSPI

“É importante haver um plano de transição que permita a digitalização da rede lotérica”

Como presidente da ALSPI (Associação Nacional dos Empresários Lotéricos), Romero Nascimento coordenou pesquisas visando melhorias na rede e apresentação de propostas para a CAIXA. Em entrevista exclusiva ao GMB, ele explicou o quanto é negativo para as lotéricas ter como um dos maiores índices de insatisfação as funcionalidades do sistema financeiro, opinou sobre o monopólio da União sobre essa indústria e fez um balanço em relação à crise de 2020, entre outros temas.

GMB - A ALSPI tem feito pesquisas para conseguir apontar em quais setores/aparelhos de trabalho há maior satisfação e insatisfação dos lotéricos. Quais conclusões chegaram? Quais pontos precisam de melhorias e quais são de excelente qualidade?
Romero Nascimento - Os maiores índices de satisfação estão relacionados especificamente ao processamento de jogos, seja processamento de apostas individuais ou coletivas (bolões). Os maiores índices de insatisfação se dirigem às funcionalidades do sistema financeiro das lotéricas (depósitos, saques e recebimentos de boletos e convênios, principalmente). Mas o principal vetor da insatisfação, junto aos lotéricos, está associado à instabilidade e disponibilidade desse sistema financeiro.

Ocorre que, para os clientes que vão às lotéricas - e principalmente para aqueles que ficam aguardando em fila para ser atendido - é irrelevante se a falta de atendimento é causada por este ou aquele problema. E isso traz impacto enorme na venda de loterias, pois muitos daqueles clientes que se dirigiram às lotéricas especificamente para pagar contas ou realizarem transações bancárias não se mostram suscetíveis a adquirirem produtos de loterias se a principal razão de sua ida não é atendida.

O que é discutido entre a Caixa e os lotéricos em relação a um novo modelo de negócio de loterias, que incluiria um novo portfólio de produtos e uma nova configuração de serviços e atendimento aos clientes das Loterias Caixa?
Em todas as reuniões com a CAIXA, a ALSPI sempre salientou sua preocupação com a sustentabilidade do negócio, com a necessidade de haver plano de médio e longo prazo para o negócio lotérico. Ocorre que o Brasil, em sua porção mais pobre e periférica da população, ainda é um país analógico, principalmente se analisada a capacidade financeira dessa população. Por isso a importância de haver um plano de transição que permita a digitalização que contemple a rede lotérica.

Mas nosso sentimento é que a agenda da CAIXA, até por falta de interlocução fora dos canais sindicais tradicionais, não tem contemplado a ALSPI nessas discussões, ainda que por razões de natureza controversa, ainda que inúmeras sugestões surgidas no início e ao longo do período de pandemia tenham vindo dessa representação.

Tem sido muito discutido se é constitucional o monopólio da União sobre loterias. Qual o posicionamento da ALSPI sobre o assunto? O que esperam da análise do Supremo?
A ALSPI não se propõe a discutir a constitucionalidade do monopólio da União sobre Loterias, até porque entendemos que compete ao poder judiciário chegar a uma conclusão sobre o assunto. Mas esse monopólio do Estado tem sua razão, pois as loterias representam uma das maiores fontes de financiamento dos programas sociais do país. Ainda que esse monopólio seja exercido de forma centralizada pela União, todo a estrutura associada ao atendimento à população e comercialização das loterias é feito a partir da iniciativa privada (lotéricas).

Mas diferentemente de outros mercados, em que 70% do volume arrecadado (em média) fica com o apostador, no Brasil ocorre o contrário: 60% da arrecadação total das loterias tem como destinação financiar programas sociais e custeio. Isso, se somado ao volume de impostos pagos pela rede lotérica através do “Simples Nacional”, não há comparação entre os recursos gerados em benefício da população pela atual estrutura no Brasil com outros países. Por esta razão, uma modificação na atual estrutura legal que implicasse na perda dessa fonte de financiamento - sob o argumento questionável da privatização - seria um desastre.

Quais planos possuem caso tenham um resultado positivo em relação à análise do Supremo?
A rede lotérica é o maior canal de atendimento presencial utilizado pelo Estado brasileiro (através da Caixa Econômica Federal). Com uma capilaridade sem comparação no Brasil, e com um custo de operação incomparavelmente menor que qualquer outra estrutura de Estado no atendimento ao público, esta estrutura não apenas precisa ser preservada como valorizada. A atual fragilidade financeira da maioria das empresas lotéricas é real e em sua grande parte tem razões históricas relacionada a congelamento dos valores das tarifas repassados pela CAIXA às lotéricas.

Temos feitos gestões junto a órgãos do governo, apresentando estudo que demonstra que o atendimento prestado pelas lotéricas precisa ser remunerado de forma a cobrir os custos associados a esse tipo de atendimento, que não pode ser comparado àqueles associados a autoatendimento ou atendimento via internet. Temos ainda nos defrontado com a aceleração das licitações de novas lotéricas em áreas onde já existem esses estabelecimentos, o que fragiliza ainda mais aquelas existentes, ação que deveria estar limitada a bairros/cidades/regiões onde não haja a presença de lotéricas, ou em locais onde tenha havido o fechamento das mesmas.

O que acredita ser necessário para que haja maior investimento na rede lotérica e maior arrecadação para ser repassada aos cofres públicos e, assim, ajudar a sociedade como um todo?
Em reunião ano passado na presença do presidente Jair Bolsonaro, nós disponibilizamos um estudo completo das loterias no Brasil que poderia servir de base para isso. Neste relatório, sinalizamos a necessidade da modernização do portfólio das loterias, com produtos interessantíssimos que poderiam impactar substancialmente a arrecadação, com potencial para, no mínimo, duplicar ou até mesmo triplicar esse volume, dependendo das ações tomadas. Isso significaria automaticamente multiplicar, na mesma proporção, os repasses aos programas sociais do governo.

O gasto per capita na aquisição de produtos de loterias em outros países (só para ficar no caso dos nossos vizinhos Argentina e Uruguai) é pelo menos de 3 a 5 vezes que o aquele despendido no mercado brasileiro (ainda que o PIB per capita desses países seja menor que o do nosso). Mas para exercitar esse potencial é preciso foco da entidade gestora no mercado de loterias, com um modelo de negócio que atenda às necessidades desse ramo e investimento em marketing nas loterias.

Se puder fazer um balanço, o que 2020 trouxe para a rede lotérica apesar da pandemia? Houve um aumento no jogo de loteria online?
Ano muito difícil, principalmente para aquelas lotéricas confinadas em Shopping Centers, que não puderam trabalhar, ou para aquelas que tiveram que operar em condições restritivas impostas pela crise sanitária marcada pela redução drástica do número de clientes. Com a pandemia, a parcela da população com saldo bancário utilizou internet banking para processar seus pagamentos, diminuindo o volume de operações realizadas pela rede lotérica.

Do outro lado (Venda de Produtos de Loterias), houve uma migração de parcela dos apostadores para a plataforma de Jogos Online da CAIXA (a saber, a comissão paga às lotéricas neste caso é menos da metade daquela paga quando o produto é vendido nos estabelecimentos, ainda que não seja um cliente novo, mas aquele “captado e gerenciado” no âmbito das lotéricas). A combinação desses dois efeitos não poderia provocar situação pior, a qual persiste e requer ações imediatas para sua reversão. Ressalta-se que os números mostram redução substancial da quantidade de apostas (sobretudo da Mega Sena, a principal modalidade de jogo de loteria), e queda da arrecadação que projeta a arrecadação de 2020, semelhante ao que vem ocorrendo desde 2015.

É preciso dizer, no entanto, que a CAIXA tem feitos alguns movimentos para mitigar os efeitos negativos sobre a receita das lotéricas, que vão desde mudança em um dos produtos de loterias, a 2ª maior receita (Lotofácil), que teve aumento de receita até agosto, impactada pela sorteio especial da Independência, passando pelo lançamento de um novo produto (Super Sete).

O que preocupa os lotéricos neste momento de instabilidade? E o que pode ser feito em relação a isso?
Existe a preocupação com o portfólio de modalidades de jogos das Loterias Caixas, quando comparado com os principais mercados. No Brasil existem 11 modalidades, contra 6 modalidades em mercados consagrados. Se considerarmos que 83% das arrecadações das loterias no Brasil são oriundas de 3 modalidades (Mega, Lotofácil e Quina), podemos dizer que a gestão de produtos precisa mudar, com foco naqueles de maior arrecadação e exclusão de jogos que não oferecem maior perspectiva de receita. Uma outra diferença em relação aos grandes mercados é a existência de jogos milionários e de sucesso, enquanto no Brasil temos a Mega Sena, que não cumpre com as características esperadas de um jogo milionário.

Informações dão conta de que há uma nova modalidade de jogo milionário em estudo, porém contemplando a manutenção da Mega Sena. Neste caso, até para não “canibalizar” ou agravar a perda de participação da Mega Sena, seria importante promover pequenas modificações de escopo da Mega de forma a permitir clara distinção desta com a loteria milionária a ser criada. Mantido o atual formato da Mega Sena, corre-se o risco de – eventualmente - inviabilizar ambas modalidades.

No caso específico, a ALSPI apresentou amplo estudo amplo relativo à modalidade de jogo milionário que demonstra que o mercado brasileiro não comporta a coexistência de dois jogos milionários, nem tampouco um jogo em que uma aposta simples, ainda que milionário, custe R$ 7,50 (que parece ser o caso da proposta em discussão na CAIXA). Tal estudo tem intuito de colaborar no desenvolvimento dessa modalidade, crucial para a recuperação e sobrevivência da rede lotérica.

Fonte: Exclusivo GMB