SÁB 19 DE OUTUBRO DE 2019 - 11:44hs.
Soraya Roye, operadora e especialista do ramo

"Os cassinos e os empresários do Jogo farão parte da recuperação da Venezuela"

A Comissão Nacional de Cassinos local divulgou novos requerimentos para as empresas que desejam operar no país, no que parece indicar uma abertura do mercado. A Games Magazine Brasil conversou com Soraya Roye, empresária da área que trabalha desde 1991 na Venezuela. 'O atual governo e o que vem têm claro que o plano do país precisa crescer, com a dolarização, os cassinos e as salas de máquinas de jogos estão dentro da recuperação da fonte de emprego', assegura.

GMB - Conte-nos um pouco sobre você e sua trajetória no setor de jogos na Venezuela ...
Soraya Roye -
Estou no setor dos jogos desde 1991 na Venezuela, participando também dos aspectos da legislação do país. Como empresário, temos nossos próprios negócios como operadoras. E no campo de máquinas, desde a compra até a manutenção, como gerente de compras de uma empresa local. Como operadores, estamos presentes no México e também tivemos negócios em Santo Domingo, Panamá e Costa Rica. Meu marido, Walter Lucci, é o responsável pela operação e administração das salas com uma equipe altamente qualificada e procedimentos que dão ótimos resultados. Somos encarregados de todo o negócio, desde a abertura chave na mão ou apenas sua operação com treinamento permanente da equipe.

Qual é a situação do setor na Venezuela hoje? É um mercado fechado, permitido apenas para loterias?
O jogo hoje na Venezuela está fechado em geral. Só existe na Ilha Margarita, onde existem 7 cassinos. Infelizmente, ele está deprimido por fatores alheios ao setor, como problemas nos serviços públicos e falta de voos até a ilha. Em relação às loterias, já começaram a se reativar nos estados mais importantes com a contribuição de empresários privados. Algo semelhante acontece em Margarita, onde os próprios empresários do hotel apostam que uma mudança política ocorrerá e estão investindo em melhorias no hotel e em seus próprios serviços.

As poucas notícias ou boatos que chegam de Caracas falam de uma possível abertura ou flexibilização de regras para o retorno de atividades como salas de cassinos ou bingos. Quanto é verdade? O governo tem outra posição agora?
O governo atual e o que vem têm claro que o plano do país precisa se recuperar economicamente, e isso só sabem fazer os empresários. Se há uma abertura encoberta pela dolarização, os cassinos e as salas de máquinas de jogos estão dentro da recuperação da fonte de emprego. Além disso, gerará receita para o Tesouro pela parte tributária. Reativar após 10 anos não é fácil, mas aqui percebe-se que já existem mudanças forçadas pela própria economia e nós que somos parte da comunidade empresarial que não quer deixar a Venezuela sabemos que continuamos tendo as maiores riquezas da região. Com estratégia e políticas públicas corretas, isso melhorará muito rapidamente.

Recentemente, a Comissão Nacional de Cassinos divulgou os novos requerimentos para as empresas que desejam operar no país. Eles se tornaram mais flexíveis do que os anteriores? Como você analisa em geral os 23 pontos do documento?
Sim, eles se tornaram mais flexíveis. Isso indica claramente que, se foram dadas as condições, esses requisitos se enquadram na lei que sempre existia desde 1997. Que já existe uma comissão que se ocupa do papel para imprimir as licenças é um avanço.

Uma empresa estrangeira poderia chegar atualmente à Venezuela, instalar um cassino e retirar periodicamente seus benefícios em dólares? Você pode importar máquinas caça-níqueis sem problemas ou ainda existem restrições? Você conhece a posição dos EUA ante a possibilidade de suas empresas enviarem máquinas para a Venezuela?
Sim, uma empresa estrangeira pode se instalar sem problemas, desde que declare a origem dos fundos, já que aqui existe uma lei antiterrorista que, precisamente, é mais fortemente exigida àquelas relacionadas ao jogo no país. A lei de ilícitos foi revogada e é legal trabalhar com moeda estrangeira, bem como repatriar seus fundos como resultado de seu investimento e retorno de seus capitais. Desconheço que haja alguma lei ou impedimento para a importação de tecnologia e equipamento; portanto, será uma estratégia de cada empresa trazer seus equipamentos, fabricar ou montar localmente, pois gera ainda mais empregos.

A posição do possível futuro governo da Venezuela em relação ao setor de jogos é conhecida caso Nicolás Maduro não seja reeleito?
Sim, até o momento há boa receptividade para tudo o que é abertura comercial e atratividade para investimentos e criação de empregos no campo do entretenimento.

A Venezuela está preparada para uma completa legalização da atividade? Ou tem que solucionar antes vários problemas mais cruciais, como abastecimento, energia e fornecimento de água?
Há muito o que fazer, eu diria tudo. O mais importante é dizer ao mundo, à indústria, que os países não terminam. Aqui estamos os empreendedores dispostos a resolver com usinas de energia, tanques de água e o que for necessário para que nossos clientes se sintam à vontade. E assim prestar um bom serviço de atenção ao cliente e ao público em geral.

Qual é o clima entre os empresários locais? Veem o momento como um ideal para decolar e refazer a indústria? Existe união entre vocês para gerar um movimento forte?
Sim, vemos que é o momento. Onde há uma crise, há grandes oportunidades, e essa é uma delas. Estamos todos unidos, sem distinção política ou social. Os venezuelanos aprenderam nesses 20 anos que só unidos, trabalhando dia após dia e honestamente levaremos nossa nação adiante.

Falar hoje da Venezuela e do setor de jogos em um contexto de profunda crise social pode parecer contraditório, mas ao mesmo tempo milhares de fontes de emprego também seriam abertas em uma área sempre bem controlada e fiscalizada, certo?
Na Venezuela, existe um clima ou sensação de que, quem quer ganhar dinheiro, procura seu espaço para alcançá-lo. Como em todos os países que passam por crises sociais, há uma emigração pobre que deixou o país e um segundo grupo, a classe média, que também decidiu emigrar. E ficam aqui quem aposta que o país pode ser retirado da crise, independentemente do governo. Nesse contexto, acredito que o setor de jogos será um teste decisivo para aqueles que querem apostar em um país quebrado, mas, ao mesmo tempo, o mais rico da região, com recursos próprios já conhecidos no mundo. Empresários inteligentes sabem perfeitamente que a Venezuela muito em breve estará à tona para nós, porque aqui não acreditamos mais em invasões nem Reyes Midas, e muito menos em mecías. Devemos falar claramente com os dois lados e dizer a verdade: ou nos deixem trabalhar ou todos seremos afundados no pior da vida subumana.

O que acontece com o jogo online na Venezuela hoje? Muitos países da América Latina já se abriram para legalizar e estão na fase regulatória, pois é uma boa fonte de receita tributária. Isso é discutido na Venezuela?
O jogo online está progredindo, mas ainda há muito a ser feito. Ao público, inclusive, ainda lhe falta de mais cultura online em geral. E não há legislação sobre o assunto.

Por fim, quer enviar alguma mensagem para empresários locais e internacionais sobre o que você acha que está chegando no seu país?
A mensagem é clara. Uma coisa é o que as redes sociais e os grupos políticos radicais vendem, e outra é o que vemos aqui na Venezuela pessoalmente. Isso já está definido. Os dois governos sabem disso: todos nós, os venezuelanos, estamos trabalhando para recuperar nossos espaços econômicos. As pessoas estão se organizando e muitas estão voltando a empreender. Então minha mensagem é que não é preciso ter medo, este é o momento de investir no setor de jogos, ser estrategista e criar confiança entre nós, já que, no final, somos os que realmente conhecem o negócio. O governo tem claro que a saída da crise econômica está em dar fluidez e garantia jurídica para investir. É algo que o mundo está exigindo. Pedimos apenas que você não nos deixem sozinhos, a Venezuela precisa de todos vocês.

Fonte: Exclusivo GMB