SEX 13 DE DEZEMBRO DE 2019 - 10:50hs.
Artigo do jornal esportivo português O JOGO

É assim que funciona o Sistema de Detecção de Fraudes da Sportradar

A Sportradar, empresa contratada pela Federação Portuguesa de Futebol para garantir a credibilidade das competições nacionais, protegendo-as do fenômeno dos resultados combinados e das apostas ilegais, é líder mundial no combate ao 'match fixing'. Ela recebeu O JOGO na delegação de Londres para revelar mais sobre a forma como lida com uma das maiores ameaças à credibilidade do futebol.

“Já detectamos casos em que os 22 jogadores de campo e o árbitro estavam envolvidos no esquema de viciar resultados”, disse Tom Mace, diretor de operações de integridade da empresa. Essa assustadora afirmação foi feita de forma serena e com o carimbo de credibilidade garantido por Mace, um londrino de 35 anos de idade, diretor de operações de integridade da Sportradar. A empresa, contratada pela FPF para garantir a credibilidade das competições nacionais, protegendo-as do fenômeno dos resultados combinados e das apostas ilegais, é líder mundial no combate à fraude e ao "match fixing". Ele recebeu O JOGO na delegação de Londres para começar para revelar mais como lida com uma das maiores ameaças à credibilidade do futebol.

Casos como o que descreve no início - a Sportradar não quis divulgar o país onde aconteceu, mas garantiu que não foi em Portugal - são excepcionais, mas a regra não é menos preocupante. "Os alvos principais dos "fixers" são os goleiros e os zagueiros, aqueles que mais facilmente podem garantir a influência direta no resultado, e os casos mais correntes envolvem um mínimo de três ou quatro jogadores". Quantos mais jogadores envolvidos, mais provável é que o resultado final seja aquele que os "fixers" pretendem, existindo até uma espécie de classificação que é partilhada com os respetivos "clientes" e que vai de um (o resultado combinado tem poucas probabilidades de acontecer) até cinco (o resultado é praticamente garantido).

Ainda assim, cerca de 25% das tentativas de viciação de resultados no futebol falham. "É um esporte que envolve muitos fatores aleatórios. Por regra, os jogadores são abordados para perderem, mas o resultado também depende da capacidade da equipe adversária de ganhar, o que nem sempre acontece".

Portugal tem estado na linha da frente do combate à fraude e às apostas ilegais. A ligação com a Sportradar iniciou-se em 2009, com a monitorização da I e II Ligas e da Taça de Portugal, estendendo-se atualmente ao Campeonato de Portugal, à Liga e Taça da Liga de Futsal e à Liga Revelação. As preocupações da FPF têm razão de ser. Arredondado para baixo, o valor anual do mercado das apostas das competições portuguesas movimentado a nível global atinge os 12 mil milhões de euros. Sim, o suficiente para "comprar" cem vezes um jogador como João Félix. Só os jogos da I Liga movimentam mais de 8 mil milhões de euros com cada jogo a valer mais de 27 milhões de euros. A II Liga representa quase três mil milhões de euros anuais e cada jogo movimenta 9,5 milhões de euros.

"A popularidade das competições portuguesas é uma preocupação. Ocupam a 6ª ou 7ª posição em termos de popularidade entre os apostadores a nível global e movimentam valores que as tornam interessantes para os fixers", explica Tom Mace. Se o valor for muito baixo, o que acontece com competições menos credíveis, qualquer movimentação mais radical faz disparar os sistemas de alerta.

Porque "o segredo é a alma do negócio", a Sportradar não quis revelar o número de jogos suspeitos detectados nas competições portuguesas, mas não tem dúvidas de que, desde 2008/09 quando o Sistema de Detecção de Fraudes (SDF) da Sportradar foi implementado um total de 4.352 jogos foram manipulados em todo o mundo, sendo que desses, mais de 90 por cento aconteceram em jogos de futebol e o fenómeno tem vindo a crescer. Até hoje, houve 299 sanções disciplinares baseadas em relatórios do SDF e 25 indivíduos foram considerados culpados e sancionados no âmbito de investigações criminais, com a credibilidade do sistema a ser validada por instituições como o Tribunal Arbitral do Desporto.

FPF investe forte na prevenção

Rute Soares, Integrity Officer da FPF, fez parte da comitiva que visitou a delegação londrina da Sportradar e fez questão de sublinhar a importância do trabalho realizado pela FPF no combate à viciação de resultados. "A atuação da Federação Portuguesa de Futebol faz a dois níveis: o da regulamentação, com introdução nos regulamentos de normas que preveem sanções específicas para os agentes desportivos envolvidos em situações de match-fixing; e o da prevenção, que passa por ações de formação junto de todos os clubes da I e II Ligas, mas também nas divisões inferiores". Rute Soares sublinha a importância desse trabalho de alerta para uma realidade relativamente nova, mas também para a gravidade das sanções associadas, que ainda são desconhecidas por uma parte significativa dos jogadores.

Por seu lado, João Oliveira, do Sindicato dos Jogadores de Futebol, refere que o match fixing é uma "preocupação central" para a instituição, frisando a importância do trabalho da Sportradar no sentido de proceder a acusações "sustentadas em bases credíveis". "O Sindicato tem uma política de tolerância zero em relação a este tipo de situações, mas será sempre intransigente na defesa da honra dos jogadores" demasiada vezes alvo de acusações falsas. De resto, João Oliveira chama a atenção para a necessidade de garantir a idoneidade dos investidores nos clubes de futebol, bem como para o agravamento das sanções por incumprimento salarial, fatores que agravam o risco ocorrência de situações de match fixing.

Um radar que vigia 300 mil jogos

O Sistema de Detecção de Fraudes da Sportradar é um serviço que identifica manipulação de resultados relacionados com apostas. O sistema monitoriza movimentos de odds de mais de 600 operadores, incluindo casas de apostas asiáticas e europeias, mercados regulados e não regulados garantindo uma visão completa do mercado de apostas global. Com uma equipa que inclui 50 analistas de integridade altamente qualificados que operam a partir de escritórios em Londres, Manila, Sydney, Montevideo e Minneapolis e com o apoio de mais de 7 mil jornalistas de dados, o SDF analisa cerca de 300 mil jogos todos os anos investigando padrões de apostas suspeitos em tempo real. No caso de haver suspeita de atividade ilegal, um relatório exaustivo é compilado num prazo máximo de 72 horas fornecendo uma plataforma credível para procedimentos disciplinares ou investigações criminais no âmbito da manipulação de jogos.

Fonte: Jorge Maia - O Jogo