TER 11 DE DEZEMBRO DE 2018 - 10:35hs.
Resenha histórica do Codigo Poker

Sede do WSOP, Copacabana Palace do Rio de Janeiro já foi o maior cassino do Brasil

Há quase 100 anos, quando ninguém poderia imaginar a febre que o poker se tornaria no Brasil, os cariocas se divertiam nas mesas e roletas do tradicional hotel. Essa WSOP Rio marca uma ponto de mudança na história do poker carioca. Tão acostumado a conquistas, este esporte da mente, que quebrou recordes e preconceitos nos últimos anos no Brasil, precisava dar um passo à frente na antiga capital federal.

Em Las Vegas , o mais famoso dos hotéis-cassino, o Rio, carrega no nome uma homenagem à mais famosa cidade do Brasil. Ironicamente, a própria Cidade Maravilhosa não possui, porém, qualquer estabelecimento equivalente ao “Rio” americano; nenhum, porque há sete décadas estão proibidos no país os jogos de azar (dentre os quais não incluímos o poker, obviamente).

Os cassinos há tempos não fazem parte da vida do brasileiro. Quando muito preenchem um imaginário alimentado por filmes e livros estrangeiros. Nem sempre foi assim, porém: voltemos 80 anos no tempo e veremos um mundo bem diferente.

Rio de Janeiro – Anos 40
Vivia-se no Brasil, no começo da década de 40, anos de crescimento econômico farto, impulsionado principalmente pela indústria cafeeira de São Paulo. Enquanto isso, o Rio de Janeiro, capital federal e do extinto estado da Guanabara, surfava na onda de prosperidade.

Ainda mais bela que hoje, a cidade – que não conhecia a violência urbana do século 21 e era tida como cartão postal – recebia todo tipo de investimento federal e tinha sua economia impulsionada, entre outros setores, pelo turismo, que tinha como carro chefe os cassinos.

Eram muitos. No Rio, três deles mereciam destaque: o Cassino da Urca, o Atlântico, localizado no Posto 6, e o Copacabana Palace, o mais antigo dos três, fundado em 1924.

O circuito de cassinos dominava as noites de boemia da cidade. Lá, noite sim noite não, se viam: as vedetes, as estrelas do rádio, do cinema: de Carmen Miranda (que fez shows no Copacabana Palace em 1935) a Heleno de Freitas; de Dorival Caymmi a Orson Wells.

O Rio amava seus cassinos. Era como Havana nos tempos de Fulgencio. Um tempo bom para amantes do jogo. Um tempo que acabou com a canetada que pôs fim ao jogo de azar no país, em 1946, pelas mãos do presidente Eurico Gaspar Dutra. Ironicamente sucessor e indicado por Getúlio Vargas, responsável pela legalização do mesmo, nos anos 30.

WSOP Rio: 2 reencontros
Esta WSOP Rio marca uma ponto de mudança na história do poker carioca. Tão acostumado a conquistas, este esporte da mente, que quebrou recordes e preconceitos nos últimos anos no Brasil, precisava dar um passo à frente na antiga capital federal.

Em 2005, o poker acontecia muitas vezes em casas clandestinas, porque havia ainda o entendimento por parte das autoridades de que se tratava de um jogo de azar; em 2006, foi criado o BSOP, que reunia fields de menos de 100 pessoas num Main Event.

Em pouco mais de 10 anos, tudo mudou. Mesmo assim, restava a última trincheira: o Rio, cujas autoridades judiciais tem um histórico de má vontade com o poker. Em 2013, uma etapa do BSOP foi cancelada. Em 2018, finalmente, o poker venceu. O primeiro reencontro promovido por essa etapa do WSOP Circuit foi o do poker com a Cidade Maravilhosa.

O 2º reencontro. Desde os tempos de Dona Carmela
Há 10 anos, o Rio não via um grande torneio. Há muito mais tempo, 72 anos, não se viam fichas e cartas rodando sobre mesas do quase centenário hotel que nesta semana volta a ser meca do poker brasileiro.

A proibição dos jogos de azar no Brasil foi estabelecida por força do decreto-lei 9 215, de 30 de abril de 1946, assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra sob o argumento de que o jogo seria “degradante para o ser humano”.

Dizem os boatos, nunca confirmados, que Dutra tomara a iniciativa de banir os jogos de azar e, consequentemente, os cassinos, por influência de sua esposa Carmela Dutra, tida como uma católica fervorosa, que tinha completa ojeriza pelo jogo e tudo o que os cassinos representavam: mulheres, bebidas e boemia.

Quando banidos, os cassinos viviam o auge. Eram, em 1946, 70 em atividade no país, alguns base da economia de suas cidades sede, como era o caso em Poço de Caldas –MG, Petrópolis –RJ e Santos -SP. E o cassino do Copacabana Palace tinha uma importância especial, entre tantos.

Fundado um ano após o hotel, de 1923, a existência do cassino era uma exigência do criador do Copacabana Palace, Octávio Guinle, e foi fundamental para a consolidação do glamour do hoje tradicional estabelecimento.

Nos anos 20, para que permanecesse aberto, antes da legalização promovida por Vargas, foram travadas várias batalhas contra o então presidente, Arthur Bernardes.

Ao longo dos anos, tanto o hotel como o antigo cassino foram incorporados pela cultura popular, de dentro e fora do Brasil. Uma das primeiras referências ao cassino foi feita no filme americano Flying To Rio que, embora tivesse sido filmado todo em Hollywood, tentava recriar o ambiente festivo da casa.

Os primeiros e os últimos
Quando teve início esta edição da WSOP Rio, coube aos veteranos, participantes do Senior Event, abrirem o festival. Eles faziam história num local que respira história a cada metro.

Hoje, o Copacabana Palace é sede da primeira etapa do WSOP Circuit na cidade. Na última noite de abril de 1946, o cassino do hotel foi palco da última partida de Roleta no Brasil (não se tem informações sobre a última mão de poker), minutos antes de chegar ao hotel a notícia da proibição do jogo no país.

O último homem a colocar uma ficha na mesa do cassino do Copacabana Palace não sabia, mas era um privilegiado, independentemente do desfecho da aposta.

Apenas hoje, 72 anos depois, com o poker, o universo dos cassinos volta ao hotel; faltam ainda a Roleta, o Black Jack… etc. etc.

Fonte: Felipe De Queiroz - Codigo Poker