SÁB 7 DE DEZEMBRO DE 2019 - 12:08hs.
Estudo feito pela Universidade de Alberta, no Canadá

Como pesquisas de Inteligência Artificial em pôquer se aplicam à realidade

A Inteligência Artificial (IA) tem utilizado o pôquer como base para testar a eficiência das máquinas e, futuramente, fazê-las criarem estratégias para ajudar o consumidor a negociar a compra de um carro, por exemplo. 'Ter um planejamento estratégico de longo prazo e todas as habilidades para jogar um jogo você tem que ter na vida também. Por causa disso, o jogo é uma plataforma muito natural para validar todas essas ideias de inteligência artificial”, afirmou Marlos C. Machado, doutor em inteligência artificial pela Universidade de Alberta.

Nas últimas décadas, tem sido feitas pesquisas em torno da Inteligência Artificial a partir de jogos de pôquer. A Universidade de Alberta, no Canadá, tem um grupo de pesquisa dedicado ao pôquer que desenvolve programas desde 1997.  Em 2015, eles chegaram a um marco, quando anunciaram o Cepheus, o primeiro sistema capaz de enfrentar qualquer um em uma partida longa da modalidade mano a mano com limite de Texas Hold’em e terminar com mais dinheiro. Nesse caso, máquina enfrenta apenas um jogador e as opções de aposta são limitadas.

Cepheus foi o robô que passou dois meses treinando o equivalente a bilhões de mãos e construindo uma base dados com as cartas recebidas, decisões de apostas e resultados. Ao fim do treinamento, ele tinha um registro de todas as mãos possíveis e de quais decisões geraram benefícios e quais geraram prejuízos.

“O pôquer é um jogo de pessoas antes de cartas e é guiado por três pilares: o caótico (o homem), o aleatório (o baralho) e a ciência (estratégia). É um jogo de lógica difusa e essa modelagem matemática se complica pelo fator caótico, não a bagunça, mas uma pequena mudança que altera o resultado final. Ou seja, o computador ajuda muito a resolver dois dos pilares (aleatório e caótico) e o homem ainda é preponderante na questão caótica”, opinou Vinicius Marques, jogador profissional de pôquer, treinador e produtor de conteúdo sobre o assunto para sites especializados.

Os testes foram essenciais para analisar a decisão estratégica da máquina. “O argumento é o seguinte: jogos em geral capturam muitas coisas que ligamos a uma inteligência artificial. Têm que planejar em tempo real, pensar em consequências das suas ações. Quando você coloca crianças pequenas para jogar alguma coisa, não é apenas para se livrar delas, mas para reconhecer formas, cores, padrões, e o jogo ensina tudo isso”, explicou Marlos C. Machado, doutor em inteligência artificial pela Universidade de Alberta.

“Com o tempo, você passa a lidar com outro jogador, tentar antecipar as ações, ter um planejamento estratégico de longo prazo, e todas essas habilidades para jogar um jogo você tem que ter na vida também. E por causa disso, o jogo é uma plataforma muito natural para validar todas essas ideias de inteligência artificial”, completou Machado.

De acordo com pesquisadores do DeepStack, desenvolvido pela Universidade de Alberta, do Libratus e do Pluribus, outros programas de pôquer conseguiram ganhar dos melhores jogadores profissionais do mundo e em modalidades diferentes. Segundo eles, a inteligência artificial que domina um jogo tão complexo é capaz de lidar com problemas reais com o mesmo nível de dificuldade.

Com os testes comprovando o avanço estratégico da IA, ela começou a ser pensada em maneiras para ser aplicada na vida real.“O computador não pode vencer no pôquer se não blefar. Desenvolver uma inteligência artificial que possa fazer isso com sucesso é um tremendo passo à frente cientificamente e tem inúmeras aplicações. Imagine que o seu smartphone um dia conseguirá negociar o melhor preço de um carro para você. Esse é apenas o começo”, afirmou o chefe do departamento de Ciência da Computação da Carnegie Mellon, Frank Pfenning, ao texto sobre o Libratus, no site da universidade.

A Inteligência Artificial já faz parte do dia a dia sem que as pessoas percebam. Uma das vantagens mais comuns da implantação da IA nas empresas é o chatbot, que nada mais é do que o atendimento automatizado. Ele é capaz de analisar informações para entender a intenção do cliente e responder de acordo com o que o consumidor precisa.

Outra vantagem que se tornou realidade graças às pesquisas de pôquer foi a máquina encontrar a melhor solução para pessoas com tratamento de diabetes. “Quando você está doente, com diabetes, existem diferentes tratamentos. Mas há tratamentos que, para você, são supereficazes, mas para outras pessoas não são, e o tratamento que é médio eficaz para todo mundo. O que eles fizeram foi: podemos fazer como em um jogo de pôquer. O seu corpo são as cartas escondidas, e eu quero jogar da melhor forma, ou seja, tratá-lo da melhor maneira possível, com as informações que eu tenho”, contou Machado.

“Existe um outro trabalho que eles falam que é de segurança de aeroporto. Você pensa também em um jogo. Talvez haja terroristas querendo atacar o aeroporto, e a segurança, de novo, lida com informações escondidas. Como faz para desenvolver uma abordagem para esse monitoramento? Também há técnicas de pôquer aplicadas nesses resultados”, concluiu Machado.

Fonte: GMB